João Wainer/Divulgação
João Wainer/Divulgação

Morena Tropicana

Unindo Cabo Verde, Brasil e Cuba, Mayra Andrade conta sua ''Stória''

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Quando se fala em música de Cabo Verde, o primeiro nome a vir à tona é o de Cesaria Evora. Mas o país insular africano tem outras belezas a oferecer além das praias, mornas e coladeiras predominantes na ilha da diva dos pés descalços: a voz, a presença morena, ensolarada, e a riqueza rítmica de Mayra Andrade. Com o repertório Stória, Stória..., seu segundo e ótimo álbum, ela canta em São Paulo no dia 22 de outubro.

Cesaria é de São Vicente (ao Norte), Mayra vem de outra ilha, Santiago (ao Sul do arquipélago) e traz outras referências rítmicas de matrizes africanas, como o funaná e o batuco, que não existem em São Vicente. "Minha ilha é talvez a mais africana de Cabo Verde e o que me interessa é dar a conhecer internacionalmente, com approach mais pessoal e contemporâneo, ritmos que até agora ficaram só lá."

Diferenças à parte, ambas têm significativa relação com a música brasileira. O CD de Mayra foi produzido pelo paulistano Alê Siqueira, que cravou sua marca em trabalhos de Arnaldo Antunes, Tribalistas, Tom Zé, Zé Miguel Wisnik e da cubana Omara Portuondo, entre vários outros.

A presença do produtor brasileiro pode induzir o ouvinte a achar que Mayra também teve influência de jongo, maracatu, marcha "caetaneada" e outras cadências e misturas tropicalistas, liquidificando-as com os cubanos e cabo-verdianos no CD sucessor de Navega. Mas não. "A música brasileira e a cubana são mais conhecidas no mundo do que a cabo-verdiana, então, o pequeno é aspirado pelo grande. Acham que é "tipo música brasileira" o que faço, mas as pessoas viram pela Cesaria uma parte da vitrine do que é Cabo Verde e desconhecem todo um universo", defende.

O ritmo da canção Nha Damáxa, por exemplo, é bandeira, só tocado na Ilha do Fogo. "Dentro da bandeira que é, digamos, um tipo de maracatu, você tem 32 variações. Músicos brasileiros que conheci aqui em Paris costumam comparar certos ritmos nossos com os de vocês, Mas não é idêntico, é parecido. Turbulensa é uma marcha como a gente toca no carnaval. Em Cuba eles também tocam, mas lá se chama conga. Não é a vontade de tocar música brasileira, mas de mostrar que entre Cabo Verde, Brasil e Cuba tem um ritmo que é comum."

Liberdade. Mayra diz que sua identidade está preservada na "liberdade de poder provocar encontros e de não ter nenhum complexo em assumir uma estética que possa vir de outra música, que não seja somente a cabo-verdiana". Nascida em Cuba "por mero acaso", ela cresceu entre Senegal, Angola, Alemanha e Cabo Verde. Com arranjos do carioca Jaques Morelenbaum. Stória, Stória... foi gravado em São Paulo, Rio, Havana e Paris e tem participação do violonista paulista Swami Jr., que também trabalha com Omara. "A música brasileira esteve sempre na minha vida. Com cinco ou seis anos eu já ouvia Caetano Veloso, então, meio que me eduquei com essa música."

Ao mesmo tempo, ela sempre foi "muito sensível" à cultura cubana, que considera " muito magnética", e tinha vontade de voltar ao país onde nasceu. Foi assim que aos 22 anos (está com 25) ela passou a frequentar Cuba e fazer contatos com músicos de lá. Entre eles está o soberbo pianista Roberto Fonseca, com quem já tinha gravado e que participa de seu novo CD.

Apesar de já ter cantado em espanhol em shows, ela, porém, ainda resistiu a gravar nesse idioma, preferindo o dialeto crioulo, que a seu ver não é uma alternativa de afirmação política, de resistência cultural. "Num disco, justamente porque tenho a possibilidade de cantar em várias línguas, fico com receio de no final apresentar um disco que seja incoerente ou tenho gosto de salada russa. Então gravo em crioulo e em cada disco tem uma música em francês, porque é minha terceira língua, falo desde menina", diz. "O crioulo é a língua pela qual a cultura cabo-verdiana se expressa, apesar de o português ser a oficial. A gente canta em crioulo não para reivindicar a nossa nacionalidade. É porque é natural, é a raiz, é a cultura, é a identidade, é a bandeira. É o nosso ritmo."

Mesmo que não se entenda muito o significado de algumas expressões, misturadas com português, sua música é tão deslumbrante quanto as águas cristalinas das praias de Cabo Verde.

MAYRA ANDRADE

Citibank Hall. Av. Jamaris, 213, Moema, tel. 4003-6464. Dia 22 de outubro, 22 h. De R$ 60 a R$ 130 (meia entrada: de R$ 30 a R$ 65)

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