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Mordida de marciano

‘Esta noite eles devem te buscar. Adeus. Te amarei para sempre.’ E apagou a luz

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 03h00

Nuno era um simpático empresário nascido em Lisboa. Sua fábrica de iogurte grego artesanal dava muitas alegrias, mas também muitas preocupações. O estresse do rapaz costumava evidenciar-se através da pele, que ficava avermelhada e extremamente reativa, gerando muita coceira (ou comichão, como se diz em terras portuguesas). 

Rita, esposa de Nuno, era uma jovem escritora brasileira que também vivia bastante preocupada com trabalho. No entanto, sua pele não sofria tanto, uma vez que transferia todo o estresse para a região dos ombros. Na bolsa da moça havia sempre uma cartela de relaxante muscular e outra de antialérgico para as emergências do cônjuge, tendo em vista que ela já sabia que lidar com homens “doentes” era uma das tarefas mais ingratas da face da Terra. A memória de seu pai sofrendo como um ferido de guerra em virtude de um simples resfriado sempre lhe servia de aviso.

Numa noite de primavera, saíram a pé para jantar. A iguaria portuguesa eleita para a refeição foi a francesinha (sanduíche tradicional da região do Porto, bem levinho, composto por duas fatias de pão de forma recheadas com presunto, linguiça, salsicha fresca, mortadela e bife de vaca). O sanduíche é coberto por fatias de queijo que derretem no forno. Por fim, um ovo frito no topo e um molho à base de tomate, cerveja e pimenta piri-piri. Voltaram com a barriga estufada, tentando fazer a digestão ao longo da caminhada.

Ao chegar em casa, Nuno começou a queixar-se da pele. Rita disse que deveria ser por causa dos embutidos do sanduíche. Ele preparou um chá e pegou um comprimido, enquanto ela organizava as dezenas de livros que havia deixado espalhados em cima da cama, no chão do quarto, no braço do sofá e na mesa de jantar. Foi então que o incidente começou.

Ela estava colocando O Triste Fim de Policarpo Quaresma na prateleira quando Nuno gritou na cozinha “OH PÁ, MAS O QUE É ISTO?!”. Assustada, Rita saiu correndo para lá. Ao chegar, viu Nuno com o braço esticado em cima da pia e um ar de assombro. “O que houve amor?!”, perguntou ela. E ele, pesaroso, de cenho franzido, disse pausadamente “Acabo de descobrir uma pinta verde no meu braço”. Rita aproximou-se para observar a anomalia e atestou sem qualquer dúvida, enquanto voltava para a sala: é canetinha.

Ele tentou argumentar, mas ela disse ter certeza. Era a canetinha verde do estojo da Frozen, que haviam utilizado na véspera para desenhar com a miúda. Nuno insistiu, dizendo que aquilo era muito estranho, que se fosse canetinha teria saído no banho que tomou logo cedo. Rita aproveitou para dizer “isso que dá você não usar a bucha vegetal que eu trago do Brasil”.

Enquanto ela colocava o pijama, Nuno dirigiu-se ao banheiro, ainda preocupado com a pinta verde. Sentou-se para fazer xixi e mexer no celular. Dali a 3 minutos veio o segundo grito, com o dobro do volume, “OHHHH PÁÁÁÁ! QUE MERDA É ESTA?”. Rita, dessa vez, não se alarmou tanto, dado o precedente da pinta verde. “Que houve?” Ele gritou para que ela fosse até o banheiro.

Chegou na porta e olhou para o marido, que disse como quem anuncia uma sentença de morte “ESTOU A MIJAR AZUL”.

Rita arrebentou numa crise de riso que ofendeu Nuno como navalha. “Que história é essa?”, perguntava ela enquanto ria. Ele simplesmente apontou para a privada. Sim, estava azul. “Amor, isso não é seu xixi, é o produto de limpeza.” Nuno ficou alguns instantes em silêncio, desconcertado.

Já na cama, Nuno recomeçou. “Tens certeza? É muita coincidência. A pinta verde, o xixi azul...” Rita pensou em argumentar tudo outra vez. Mas mudou de ideia. “Tem razão, amor. Eu não queria te dizer nada, mas esse é um caso típico e grave de... mordida de marciano. Esta noite eles devem te buscar. Adeus. Te amarei para sempre.” E apagou a luz.

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