Morderam a Isca

Ex 'banda de Itamar Assumpção', Isca de Polícia ganha público em shows e prepara disco de inéditas

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h15

Não fosse pela reputação, dava até para afirmar que se trata de uma banda nova, tamanha a empolgação. Ninguém parece estar ali por obrigação, como num ofício trabalhista convencional, daqueles que respondem mais pelos anseios financeiros do que por uma realização pessoal. O papo é solto, as ideias avançam à galope e o riso é expressão necessária a cada tirada de Luiz Chagas, o guitarrista, também jornalista e pai dos jovens em ascensão Tulipa e Gustavo Ruiz. "A gente já tocou vinte anos, o cara morreu faz dez, e a gente ainda se diverte. Que coisa mais perversa!", dispara em mais um excerto de seu stand-up contínuo.

"A gente" corresponde ao Isca de Polícia. "O cara" é Itamar Assumpção. O motivo do encontro, regado à lembranças afetivas do ícone da Vanguarda Paulista tem pé no futuro: a banda está preparando seu primeiro disco de inéditas desde a morte do Nego Dito, em 2003. E tem show marcado para o próximo dia 20, no Tom Jazz.

Na prática, o sexteto formado por Paulo Lepetit (baixo), Luiz Chagas (guitarra), Jean Trad (guitarra), Marco da Costa (bateria) e as cantoras Suzana Salles e Vange Milliet nunca ficou desativado. Os convites para shows sempre foram constantes, cultivados pela prolífica obra de Itamar. Resquícios deixados em voz e violão pelo compositor chegaram a colocar a banda em estúdio, que culminou no disco Pretobrás III - Devia Ser Proibido, lançado junto a Caixa Preta, em 2010. O box (que saiu pelo Selo Sesc) ainda traz mais um trabalho com inéditas de Assumpção, Pretobrás II - Maldito Vírgula, além dos dez discos da carreira do cantor paulista.

Agora, porém, o salto é maior. "A fonte secou", lembra a sempre sorridente Suzana Salles sobre o esgotamento das raridades de Itamar. A confiança para seguir em frente, segundo eles, está na apropriação de uma linguagem inovadora que ainda pulsa na veia do Isca e que encontra reverberação num público mais jovem, que só puderam conhecer a Vanguarda pelas buscas no Google.

"Só vem aumentando o interesse. Fizemos uma calourada na USP com presença de quase cinco mil alunos", exalta Paulo Lepetit. "O barato da música do Itamar é que ela é atemporal. Por isso, a molecada de hoje fica pirada", explica Chagas. A cada nova apresentação, a banda era interpelada com a fatídica pergunta: "Vocês não têm um disco?" Certa vez, descreve a cantora Vange Milliet, uma senhora os procurou após um show e não se conteve em sua sabedoria desconcertante: "Vocês são a melhor banda cover do Itamar Assumpção!"

Ainda sem nome e data para ser lançado, a nova investida da Isca - que também não tem gravadora, conforme rege a cartilha do Itamar - já tem um punhado de canções. "Umas dez", diz Lepetit, responsável pelos arranjos e boa parte das composições. As letras contam com a colaboração dos amigos: Arnaldo Antunes mandou três, Tom Zé entregou uma faixa pronta, Péricles Cavalcanti elaborou uma vinheta e Alice Ruiz promete doar alguns versos ("Está difícil de arrancar dela", afirmam).

Alzira enviou um groove, que ganhará letra de Vange. Zélia Duncan, que acaba de lançar um disco com músicas de Itamar, também assina uma das composições e ressalta a importância do Isca se manter em atividade. "Eles possuem esse desejo genuíno de levar adiante a obra do Assumpção e ainda acrescentar a tudo isso o jeito deles também que, na verdade, se mistura muito com o Nego Dito. Itamar passou quase toda a vida profissional perto desses artistas, que também o ajudaram a levar sua carreira", avalia. O principal objeto de inspiração teria que aparecer em algum momento. "Tem uma música que a gente já toca, chamada Beléleu via Embratel, que nunca foi gravada e vai para o disco", avisa Lepetit. "É um desafio. Você está se colocando como banda num trabalho autoral. Botando a cara para bater. É lógico que vai ter comparações, mas vai ser bacana até pra continuarmos levando este som."

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