Morando em Lisboa, Marcello Antony, Carolina Kasting e Thiago Rodrigo estrelam novela portuguesa

Morando em Lisboa, Marcello Antony, Carolina Kasting e Thiago Rodrigo estrelam novela portuguesa

Folhetim 'Valor da Vida' conta ainda com outros três atores brasileiros no elenco; assim como eles, outros artistas brasileiros buscam novos desafios profissionais, e mais segurança, em outros países

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 06h01

Existe um já conhecido movimento de brasileiros se mudando para o exterior, sobretudo para Portugal, que se tornou um de seus destinos preferidos – só no ano passado, houve um acréscimo de cerca de 60% nos pedidos de Golden Visa, de acordo com Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). E com a classe artística não é diferente. As motivações são as mais variadas: a busca por novos desafios profissionais ou mesmo por uma nova vida em outro país, o desejo de fugir da violência do Brasil. Recentemente, o projeto de uma emissora portuguesa, a TVI, arrebanhou, de uma vez, seis atores brasileiros, rostos que ficaram famosos na Globo. Marcello Antony, Thiago Rodrigues, Carolina Kasting, Cassiano Carneiro, Adriano Toloza e Thaiane Anjos estão no elenco da próxima novela do canal, Valor da Vida, de Maria João Costa, com estreia prevista para setembro. 

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Com projetos no teatro engatilhados, mas sem trabalhos na TV em vista no Brasil, Marcello Antony e Carolina Kasting aceitaram o convite feito pela TVI e se mudaram, cada qual com sua família, para Lisboa. Antony foi pego de surpresa pela proposta, o que foi um estímulo, mas o ator também levou em consideração o fato de Portugal ser mais seguro. Na novela, ele interpreta o personagem Jesus, que é ateu.

Já Carolina conta que ela e o marido, o ator e diretor de teatro Mauricio Grecco, sempre tiveram o desejo de uma experiência fora do País e sonhavam em morar na Europa. “Sempre fui artista e uma profissional autônoma. Eu e Mauricio criamos nossos filhos assim, vendo arte o tempo todo. A vinda para cá é uma abertura de possibilidades para todos nós”, diz a atriz, ao Estado. Assim como acontece nas novelas no Brasil, Carolina diz que os atores do folhetim português já se tornaram amigos: “Eles me receberam muito bem”. 

Em Valor da Vida, Carolina vive Camilla Vasconcellos, “uma vilã com trajetória de heroína”, define ela. “Camilla era uma menina pobre da Chapada Diamantina que viveu uma tragédia na vida, sobreviveu a tudo e se tornou uma poderosa mulher, dona de um império”, completa a atriz, que diz não poder revelar a história da novela. O que se sabe é que a trama já está sendo gravada, e tem locações em Portugal, Brasil e Líbano. 

E, apesar de o elenco da novela ser majoritariamente de origem portuguesa, os atores brasileiros falam o português do Brasil. “Quando o texto chega, fazemos alguma adaptação, mas é pouca coisa. Eles nos entendem perfeitamente. A novela mostra uma cena real de Portugal, que tem muitos brasileiros vivendo”, comenta Thiago Rodrigues. O ator, que fez sucesso em novelas como A Favorita e Páginas da Vida, encerrou seu contrato com a Globo para participar do projeto em Portugal.

“Sou muito grato à Globo, fui muito feliz nesses quinze anos que trabalhei lá. Estava com vontade de passar um tempo fora, e achei que era o momento de fazer outras coisas”, afirma. “Fizemos um acordo, mas deixei as portas abertas.” E o que o motivou a trabalhar em Portugal? “Talvez o desafio de abrir um novo mercado. Viver em outro país, ver outros mundos. Ou talvez para poder beber bons vinhos sem ter que gastar uma fortuna, como é no Brasil”, diz Thiago. 

A única parte ruim desse movimento, admite o ator, é a saudade que tem do filho, Gabriel, que mora no Brasil. “Mas estou aqui com um propósito. Eu amadureço, ele amadurece e assim é a vida. Falamos quase todos os dias por vídeo-chamada. Tem dias que dói mais, dói, mas me dá forças também.” Na nova novela, Thiago faz o personagem Vasco. “Ele é um cara que vive um drama familiar muito grande. Cheio de contradições, se envolve com duas irmãs”, explica o ator. Antony, Thiago e Carolina não descartam a possibilidade de permanecer por lá depois do fim da novela – ou até se dividirem entre Portugal e Brasil. “Um país não elimina o outro, pelo contrário, fui convidada para fazer novela aqui por causa da minha carreira no Brasil”, diz Carolina. 

Morando em Lisboa há dois anos, o ator Miguel Thiré conta que sua primeira escolha foi sair do Rio, no início de 2016, antes da Olimpíada e “do Rio entrar em calamidade, antes também dessa febre de brasileiros vindo para Portugal”. Lá, o ator garante que, em geral, há uma boa receptividade ao artista brasileiro. Embora já tenha feito novela em Portugal e esteja dando aulas de interpretação e dirigindo peças, ele afirma que a vida no país luso não é assim tão fácil como alguns pensam no Brasil, principalmente para quem trabalha no mercado audiovisual. “Trocar o mercado de interpretação brasileiro pelo mercado português é reduzir de um país de mais de 200 milhões de habitantes para outro de 10 milhões e ainda mais sendo estrangeiro. Contudo, somos respeitados e admirados, pois já somos conhecidos pelos portugueses das telenovelas brasileiras.”

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Há três anos morando na capital portuguesa, a atriz Joana Balaguer não pensa em voltar para o Brasil. “Estou muito adaptada e já me considero daqui. Meu marido é português, meus filhos estão comigo e minha mãe está sempre por aqui”, conta a ex-atriz de Malhação. Como já conhecia bem Portugal antes mesmo da mudança definitiva, ela diz que não se espantou ao perceber a ligação dos portugueses com a cultura brasileira, o que facilita a adaptação de quem troca o Brasil pelo país luso. “Os pais do meu marido viam Tieta e meu marido sabe muito mais de música brasileira do que eu.”

A atriz Sílvia Pfeifer morou em Portugal no ano passado, por conta das gravações de Ouro Verde, também da TVI: “Adorei trabalhar com atores que pensam diferente, agem diferente e estão acostumados a uma outra escola, método e hábitos. Tive que começar a falar de uma maneira diferente, não com o sotaque deles, mas por causa da construção de frases e expressões que eles usam.” 


O diretor José Padilha e escritor Ronaldo Cagiano saíram do Brasil fugindo da violência; a cantora Mallu Magalhães queria ter a experiência de morar em outro continente

Diretor de Tropa de Elite 1 e 2 e de O Mecanismo, José Padilha se mudou para os EUA em 2015. “Antes de filmar Robocop, fui vítima de uma tentativa de sequestro em minha produtora. Havia a possibilidade de terem sido alguns policiais militares que haviam perdido uma disputa judicial relativa ao Tropa de Elite. Passei a ter que andar com seguranças o tempo todo. Enfim, não valia mais a pena morar no Rio.” Vivendo em Los Angeles, Padilha investe em sua carreira internacional. “Não estou pensando em voltar no momento, mas amo o Brasil.”

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Em Portugal desde 2017, o escritor Ronaldo Cagiano conta que saiu do Brasil por dois motivos: tinha se aposentado e, o mais grave: ele e a mulher, que já tinham sofrido dois assaltos a mão armada em São Paulo, foram vítimas de um sequestro relâmpago. “Depois desse episódio, viajamos de férias para os EUA, onde passamos uns dias de uma viagem já marcada há tempos, refletimos sobre essa situação trágica e resolvemos ir embora do País.” 

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Morando também em Portugal, há cerca de 5 anos, a cantora e compositora Mallu Magalhães quis experimentar novos desafios, ter a experiência de morar em um continente diferente. Ela vive em Lisboa com o marido, o cantor e compositor Marcelo Camelo, e a filha Luisa. Mas, de tempos em tempos, está no Brasil. “Consegui fazer daqui um porto de descanso e também de trabalho, tanto aqui quanto nos outros países da Europa.”


COLABORARAM BRUNA BORELLI (DE PORTUGAL), ELIANA SILVA DE SOUZA, PEDRO ANTUNES E UBIRATAN BRASIL 

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