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Moral seletiva

A vida não pode ser elemento negociável na obtenção de valores políticos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2022 | 03h00

Eu tenho um ponto de vista que tem o dom de angariar ódios da esquerda e da direita. É uma convicção que, desde o tempo da graduação em História, causava reações adversas. Explico-me: tenho horror a ditaduras, sejam revestidas do rótulo de esquerda ou de direita. Impera, nos dois campos, uma moral seletiva. Ditador sanguinário e insuportável é o outro, do polo oposto. Quando o governo autoritário é do grupo que eu milito, começam as relativizações.

Tenho a experiência há décadas. Ataco a violência da ditadura chilena sob Pinochet. Meus alunos se emocionam, aplaudem, concordam com olhares e sabem que eu estou ao lado deles. Faço reflexões duras sobre ações criminosas como a Operação Condor que reuniu bandidos a serviço do Estado no Cone Sul e mesmo efeito: sou o herói do dia, o bom professor, o pensador claro e crítico. Ao final da aula, analisando os horrores das ditaduras conservadoras, de Rafael Trujillo a Alfredo Stroessner, viro o historiador bom e exato. Alunos chegam até minha mesa e pedem mais bibliografia e indicações de nomes para pesquisa. Fico feliz: jovens são sensíveis à violação dos direitos humanos, abominam tribunais de exceção e condenam a tortura.

Avançamos o semestre. Chega a hora de pensar o governo monocrático da Cuba de Fidel ou as limitações aos direitos de expressão na Nicarágua de Daniel Ortega. Pronto! Há protestos: “Mas eles acabaram com o analfabetismo! Houve distribuição de terras! Há pressão dos EUA nos bloqueios e há sabotagem contra esses governos”. Aprendi cedo que existem malvados favoritos. A moral é relativizada por conquistas sociais (algumas muito reais como o salto de alfabetização em Cuba) e as ações a favor de alguma distribuição de renda. Assim, como a polícia de Nicolau II era violenta e torturava metodicamente na Rússia, a repressão sob Lênin ou Stálin é menos ruim porque seria apenas defesa contra os inimigos russos brancos ou agentes imperialistas. O mesmo do outro lado: Pinochet matou, mas modernizou o país! “Ética de Bolsa de Valores”, eu penso.

Se eu retirar o verniz ideológico de gente de extrema direita e de extrema esquerda, posso identificar fatores comuns: violência é uma defesa contra um inimigo externo (comunistas ou agentes do imperialismo), estamos a serviço dos verdadeiros interesses do povo (o povo visto como conservador e cristão ou o povo visto como idealização de camponeses e operários), as conquistas justificam alguma violência para combater os resistentes e, enfim, é uma guerra e, se não tivéssemos atacado o inimigo, ele teria nos atacado. Nada novo: Maquiavel na veia, clássico e prático.

Causa-me espanto como historiador: os jovens que desfilavam em Paris criticando tudo que viviam elegiam a China de Mao (e da Revolução Cultural) como ideal. Bem, se Paris fosse governada por Mao, o movimento de 1968 teria sido eliminado na primeira reunião em Nanterre.

Eu já imagino as reações. Identifico duas tradicionais: 1) Leandro: ao atacar ditaduras de esquerda e de direita, você mostra que está “sobre o muro”; 2) ditaduras como a chinesa executaram dezenas de milhões de pessoas de forma direta e indireta, isso é muito maior do que a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985).

Nunca fui neutro. Tenho valores muito claros. A vida não pode ser elemento negociável na obtenção de valores políticos ou mesmo de desenvolvimento. Sim, a China matou mais do que a ditadura em Santo Domingo por motivos óbvios, inclusive. Porém, um assassino assume o conceito quando mata uma única pessoa. Quando elimina cem, continua sendo assassino. Sim, genocídio é mais grave do que mortes aleatórias. Os nazistas mataram quase seis milhões de judeus. Os turcos provocaram o desaparecimento de 1,5 milhão de armênios. Stálin tem nas costas mais de 20 milhões de mortos. Eu não convidaria nenhum daqueles governantes para um fim de semana comigo... Sou um humanista e defensor intransigente dos direitos humanos.

Valorizo governantes que conservam o Estado Democrático de Direito. Acho uma conservadora como Angela Merkel e uma mulher ligada à esquerda como Michelle Bachelet admiráveis em vários sentidos. Perseguiram objetivos distintos, por vias quase opostas, e ambas defenderam liberdade de expressão, habeas corpus, pluripartidarismo e direitos humanos. Posso negociar reforma agrária e seus mecanismos, cotas universitárias e outras questões. Não posso tergiversar sobre tortura, quebras constitucionais e existência de polícia secreta. Como de hábito, em nome “da pátria”, “das tradições cristãs” ou “do risco comunista”, eu revisto de um verniz positivo o que é, apenas, a odiosa vontade de controle e de poder. Não existe causa boa para o assassinato. Nunca aceitarei ditaduras, independentemente dos eufemismos que esquerda e direita usarem para caracterizar um regime de força.

“Ah, mas o regime fez crescimento econômico ou alfabetizou a maioria.” Seria como o marido que bate na esposa, mas... dá bons presentes de aniversário? Jamais entendi essa síndrome de Estocolmo que identifico entre simpatizantes dos polos extremos. Nenhum sistema é perfeito, porém a democracia é perfectível e a única viável. Relativizar a vida humana é argumento de canalhas autoritários. Isso desafia meu senso de esperança. 

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