Moral? Imoral?

Publicação, no Brasil, de Lolita foi saudada com entusiasmo pelo caderno, que classificou o romance, escrito em inglês e lançado em 1955, de 'obra-prima'

Wilson Martins, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Os criticos mais sisudos, quero dizer, aqueles escritores que são mais sisudos do que criticos, ainda estão-se perguntando se devem ou não incluir Lolita entre as obras literarias e Vladimir Nabokov entre os grandes nomes do romance universal (...). Chega a ser desalentador que, em cada geração, a proposito dos bons e dos maus livros (falo dos livros como obras de arte literaria), a respeito dos livros que ficam como a respeito dos livros que passam, a critica manifeste as mesmas hesitações, as mesmas incompreensões e os mesmos erros tecnicos de apreciação. Lolita é, nesse particular, um romance exemplar - como Manon, como Madame Bovary, como Ulysses, como O Primo Basilio, como a Recherche, como O Amante de Lady Chatterley, como todos esses livros que desgostaram os inimigos (pelo menos em palavras) do adulterio, da crua realidade, dos vicios inconfessaveis, de todas as manifestações daquela "tragica beleza das tempestades humanas", de que falava Pierre Trahard. Sempre haverá um promotor publico, com o nome predestinado de Pinard, para acusar Madame Bovary; sempre haverá um diretor de correios para impedir a circulação do Ulysses; sempre haverá os imbecis encarregados do policiamento dito moral das bibliotecas. Assim, os melhores criticos cometeram com Lolita o mesmo erro que os seus predecessores haviam cometido com O Primo Basilio ou com O Amante de Lady Chatterley, o mesmo erro que os editores norte-americanos cometeram com o livro de Nabokov: julgaram-no, como acentuava posteriormente o autor, não pela sua maneira de tratar o tema, mas pelo tema em si mesmo, isto é, desejaram inconscientemente (e é realmente Freud quem explica essas coisas) eliminar a Literatura, como atividade do espirito. Se, para admitir Lolita entre as grandes criações literarias, fôr necessario que o critico sinta pelo menos algumas tendencias humbertianas, então teríamos de desconfiar de todos os fervorosos admiradores de Proust, entre os quais, creio eu, aquele confrade se inscreve; e se, para amar Manon (atenção! é ao livro que me refiro!), for preciso que o leitor tenha um pouco da vocação de Des Grieux... É facil ver aonde conduz esse tipo de raciocinio, prova de que as preocupações moralizantes, por respeitaveis que sejam, nada têm a fazer na critica de literatura.

O que importa saber é se Lolita, como criação literaria, acrescenta alguma coisa ao genero romanesco e se o seu autor alcançou o plano em que se situam os grandes escritores, se ele pode ser incluido naquela galeria ideal em que a posteridade colocou os Flaubert e os Prévost, os Eça de Queiroz e os Joyce. É evidente que sim. (...)

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