Moradores do Bexiga reúnem-se no Teatro Oficina

José Celso Martinez Corrêa convocou,na noite de terça-feira, intelectuais, artistas e moradores doBexiga e da cidade para agregar forças na defesa de um centro deestudos "que abrigue todo o saber que a Universidade rejeita,que transforme tabu em totem", disse citando, entre outros, oManifesto do Teatro Estádio escrito por Oswald de Andrade em1943. O objetivo da convocação era ainda formar um conselhogestor que, futuramente, deverá administrar o Teatro Estádio,ampliação do Oficina, que ele sonha criar acoplado à novaUniversidade. "A democracia só funciona efetivamente se asociedade se organizar em conselhos", afirmou Zé Celso.Antes mesmo da abertura do encontro, a imagem do projetoarquitetônico acoplando Teatro Estádio e Universidade podia servisto no telão do teatro. Mas a polarização entre essaconstrução desejada por Zé Celso e o shopping que o grupoempresarial Silvio Santos - proprietário do entorno do teatro -planeja construir no local provocou polêmica na pista do Oficina Moradores do Bexiga compareceram à reunião, como queria odiretor, e alguns defenderam a construção do shopping.Pouco depois do horário previsto, 20 horas, Zé Celso e oelenco de Os Sertões surgiram no fundo da pista dançando ecantando uma canção que transforma Rap em Trap, acrescentando"o T de tesão e de teatro ao R de ritmo e ao P de poesia do Rap" Em seguida, Zé Celso pediu ao público para sentar-se em círculoe abriu a conversa falando sobre a vitalidade do teatropaulistano, "um fenômeno ainda não percebido, tão forte como nosanos 60". Citou como exemplo a revitalização da Praça Rooseveltpela atuação no local do Teatro dos Satyros, representado noOficina pelo dramaturgo e ator Ivam Cabral - recuperação essaque já havia sido apontada pela Agência Estado em reportagemveiculada no dia 18 de setembro de 2002.Zé Celso citou também a Escola de Samba Vai-Vai - "quetem filosofia no nome: vai, vai, tem de ir em frente, não podeesperar; daí a criação do conselho antes mesmo da existência doTeatro Estádio, é preciso fazer para acontecer". Falou tambémsobre o Teatro da Vertigem - "não tenho dúvida de que o RioTietê vai ressuscitar depois das apresentações de BR3, porque asgrandes transformações vêm sempre dos poetas"-, e sobre osParlapatões - "eles reinventaram o circo". Ao perceber que todosestavam representados na platéia, deu voz aos representantes degrupos, a começar pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos quetrabalha, em palcos e ruas, com a linguagem do Rap nas artescênicas. Pouco depois, veio a primeira manifestação de umamoradora: "Achei que esse fosse um encontro da comunidade doBexiga, mas já vi que aqui só tem gente de teatro", protestouEleonor Miniaci. "Como moradora do bairro, eu quero o shopping,pois é isso que vai dar emprego a quem vive debaixo da ponte,quem vive em cortiços."A intervenção esquentou as discussões e abriu espaçopara que outros moradores se manifestassem. Entre eles, CésarViana e Carmem Mascarenhas, fundadores da República do Bexiga,da qual eles são respectivamente ministros da Comunicação e daEducação. "Nós nos sentimos meio perdidos diante dos grandes.Todos queremos a mesma coisa, a melhoria do Bexiga. Aqui é nossacasa, então queremos ela limpa, iluminada", disse Carmem.Ivam Cabral perguntou: "Mas a República do Bexiga quer oshopping ou o teatro? "Queremos conversa, queremos o que formelhor", falou César. Conversa não faltou na noite. Eleonor foiembora antes do término da discussão, quase meia-noite. Mas fezquestão de abraçar Zé Celso, antes de sair sob aplausos. Já defora, falou com o Estado. Acredita que um shopping empregariamoradores de viadutos? "Bem, eles não, mas dos cortiços sim. Hágente qualificada morando ali." E garantiu que voltará aosencontros. Saiu antes de ouvir o diretor Luiz Carlos Moreira:"Um shopping é o símbolo, a expressão maior de uma sociedadefeita para poucos. O que está em jogo é um modelo de cidade."Na platéia, Luiz Felipe Sade, de 26 anos, que acaba dechegar de uma temporada de estudos na Inglaterra, entrou nadiscussão: "Na Europa, chamou a minha atenção a forma como avida das cidades, mesmo as pequenas, gira em torno do local deconcentração dos teatros, dos bares e porões onde se pode ouvirbom rock, onde há lojinhas que vendem essas roupas para jovenshippies burgueses. Acho que o Zé Celso tem razão, o Bexiga temidentidade, vocação para ser um local assim.""Poderíamos ter preparado um manifesto, um pré-plano decurrículo. Mas preferimos que isso seja pensado por muitos",disse Zé Celso. O professor de filosofia da PUC, Peter Pál Pelbartera outro entusiasmado. "A universidade deveria ser espaçoaberto a novos saberes", falou, depois de mostrar-se interessadoem participar do conselho. O debate segue virtualmente, por meiodo grupo de discussão no Yahoo que pode ser acessado comoconselho gestor do Teatro Estádio.

Agencia Estado,

16 de fevereiro de 2006 | 11h32

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