Monumento da ficção ao real

Em setembro do ano passado, William Egginton, diretor do departamento de Alemão, Línguas Românicas e Literaturas da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, publicou o artigo Quixote, Colbert e a Realidade da Ficção, no New York Times.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2012 | 03h09

No texto, ele argumentava que Miguel de Cervantes, ao publicar Dom Quixote na primeira metade do século 17, fez mais do que inventar o romance: inventou a ficção, uma visão de mundo que haveria de se infiltrar em cada aspecto da vida social, a partir de então. Dito de outro modo, reorganizou a relação entre a escrita e realidade. No artigo, Egginton considerava o comediante Stephen Colbert um herdeiro natural de Cervantes. Quando encarna o falso âncora ultraconservador em seu programa diário, diz Egginton, Colbert usa a ironia para expor uma direita americana que considera a realidade uma "construção preconceituosa, influenciada por liberais".

Egginton se formou em literatura na Universidade de Stanford, onde concluiu seu Ph.D. sob orientação de Hans Ulrich Gumbrecht, que o apresentou à obra de Luiz Costa Lima, o respeitado teórico literário brasileiro. Cita livros de Costa Lima, o maranhense radicado no Rio, como O Controle do Imaginário, entre suas fontes de inspiração. Uma influência que há de aparecer em seu oitavo trabalho, a biografia de Cervantes, O Homem Que Inventou a Ficção, prevista para publicação em 2014.

Apesar da erudição que faz parte da sua rotina no meio literário da Universidade, Egginton diz ao Estado que vai ficar longe do "academês". "Quero escrever um livro acessível ao leitor educado, nada de clausura acadêmica", promete. Se o ensaio no Times foi um aperitivo para o estilo de Egginton, ele deve manter a sua promessa.

Por que o senhor decidiu compartilhar num blog do site literário Arcade da Universidade de Stanford, os progressos de seu novo livro?

Não é uma escolha interessante? Foi, em parte, por causa do livro anterior, In Defense of Religious Moderation (Em Defesa da Moderação Religiosa), que tratava de um tópico meio explosivo, aqui, nos Estados Unidos. Eu quis estabelecer um diálogo on-line com pessoas de pontos de vista diversos e esta troca teve influência no livro publicado. Neste caso, acho que o diálogo é até mais interessante, há tantos leitores e acadêmicos devotados à obra de Cervantes e muitos já seriam citados na biografia.

Na sua opinião, ao inventar a ficção, Miguel de Cervantes acabou reorganizando a relação implícita entre a escrita e a realidade.

Este é o meu ponto de vista: acho que nós não compreendemos a enormidade do que pode fazer a narrativa de ficção. Por um lado, há a colocação formal e restritiva - toda a ficção é narrativa do que não é real. Por outro, a expansão da narrativa como na poliglossia de Mikhail Bakhtin. Acho que não é uma coisa ou outra e Cervantes para mim é uma prova disso. O que estou chamando de ficção não pode se resumir a inovação estilística. É preciso descrever esta ficção no contexto histórico e filosófico: a maneira como as pessoas pensam sua vida cotidiana permeia a política, a produção cultural, a organização do espetáculo e as crenças religiosas. No mundo da ficção que aprendemos a aceitar, a noção da realidade seria algo que existe independentemente do que pensamos ser real. Mas essa noção da realidade que parece óbvia começou no momento da emergência de Cervantes no que a história cultural se refere como a modernidade. A ficção, nesse sentido, é uma visão de mundo. A ficção seria uma forma de escrever particularmente apropriada como resposta àquele mundo. Cervantes vive naquele momento em que experimenta decepções múltiplas e profundas em sua própria vida e constrói um estilo que desmascara a decepção. Eu costumo perguntar, na sala de aula, o que é a realidade? E geralmente chegamos a uma noção de que a realidade não depende do que dizemos ou pensamos a respeito. A realidade é, de fato, realidade histórica e culturalmente específica. E essa noção se consolidou com Cervantes.

O senhor citou uma pesquisa de opinião recente na União Europeia sobre a diferença de percepção entre países sobre suas próprias qualidades, como "quem trabalha muito". Por que isso chama atenção de um biógrafo de Cervantes?

A União Europeia é um exemplo de uma vasta organização em constante negociação com identidades nacionais. Elas aprendem a viver num mundo de ficção. Precisamos que autores como Cervantes nos lembrem quanto estamos investidos nas noções de nacionalidade que são, de certa forma, construções de ficção.

Para o senhor, Cervantes não faz só paródia de narrativas de cavalaria, mas também suspende o julgamento da verdade ou falsidade que reduz toda a narrativa a um padrão.

Ao esquecer de distinguir quando estamos num modo ficcional ou não, ficamos suscetíveis às manipulações do poder que permitem a governos embromar o público - isso vale para o século 17 ou para agora. A obra de Cervantes é um manual de campo para negociar essa distinção. Ele ridiculariza mais as figuras que não negociam a distinção. No Retábulo das Maravilhas, sua peça de um ato que é uma variação do tema de A Nova Roupa do Imperador, de Hans Christian Andersen, ele transforma a encenação em um evento de mídia, como tanto dos que vemos hoje.

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