Monumental obra de Schoenberg encanta público

Na Sala São Paulo, performance de 'Gurrelieder' contou com aparato sensacional e regência precisa de Karabtchevsky

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2015 | 02h04

"Você deve ouvir minha música como escuta qualquer outra; esqueça as teorias, o método dodecafônico, as dissonâncias, etc., e, se possível, o nome do autor." Foi assim que Schoenberg definiu, em 1944, como gostaria de ter sua obra levada ao público.

Sábias palavras. Quando se usa como ferramenta de marketing a recepção hostil que cerca a obra de um compositor, afasta-se previamente uma parte dos que a ouviriam com mais naturalidade se ela estivesse inserida na programação sem estardalhaço. Ninguém precisa ter medo de Schoenberg. Basta seguir seu próprio conselho acima. Os que não leram nem ouviram nada sobre ele ou a respeito dos Gurrelieder antes de tomarem seus assentos na quinta-feira, 17, na Sala São Paulo, devem ter saído encantados com tão bela música e o aparato sensacional que cercou a performance, sobretudo no terço final dos 130 minutos, com jogos de luzes. O público urrou como no futebol, após o tonitroante acorde maciço de dó maior, com os 140 músicos da orquestra (incluindo 25 metais e quatro harpas), os 80 cantores dos três coros e os três solistas em cena. Nos 28 compassos finais, não há um só sustenido ou bemol - reina um imenso, reluzente dó maior.

Apesar da duração, ninguém sentiu cansaço. Afinal, a sinfonia-oratório-melodrama é uma espécie de túnel do tempo invertido, na ótima expressão de Allen Shawn, autor de um dos mais agudos livros sobre o compositor. Ou seja, conta uma história da música pelo avesso. Começa com acordes estáticos e a melodia do trompete evocando o início do Ouro do Reno, de Wagner, referência que continua nas intervenções do rei Valdemar; as primeiras duas partes são monumentais do ponto de vista de potência sonora, mas a terceira é quase camerística, com instrumentação aérea, apesar do volume grandioso de participantes. É onde ela vira um melodrama graças ao narrador. Schoenberg brinca com os estilos como um pós-moderno, com refinadíssimo domínio da ciência da orquestração. Incríveis as tinturas de opereta/musical secundando o ótimo tenor Anthony Griffey, bobo da corte, no início da terceira parte. E, quando o coro final entoa o hino à chegada do Sol, promove uma espécie de eterno retorno: é como se a música voltasse às suas origens. Isto é, "Dó Maior, o centro do sistema solar da tonalidade", segundo Shawn, que também anota que o início e o final francamente tonais são "visões da tonalidade por alguém que já sacou que há alternativas musicais para ela".

Numa obra com tantas ambiguidades, o papel do maestro é crucial. Contracenando com uma multidão de instrumentistas, três corais e seis solistas, Isaac Karabtchevsky manteve o controle fino das alturas e intensidades. Excelente. A orquestra cobriu várias vezes o tenor Robert Dean Smith, mas a deficiência não foi do regente, e sim do cantor, para nossa má sorte encarregado do papel mais extenso. Os demais solistas estiveram bem acima dele. Destaque para o barítono Lester Lynch e a soprano Jennifer Rowley.

P.S.: O público adorou os Gurrelieder na estreia, em 1913.

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