Montreal abre seu festival de nova dança

Batizado como Legrandlabo (Ograndelaboratório), assim mesmo, com as palavras grudadinhas, começa hoje, em Montreal, no Canadá, o 10.º Festival International de Nouvelle Danse (Find). Durante três semanas, 53 coreógrafos, oriundos de 8 países, mostrarão 32 obras (9 estréias mundiais e 13 na América do Norte) em 95 espetáculos, que serão apresentados em 12 espaços distintos. Um fôlego e tanto, que se encerra no dia 6 e que tem como objetivo explicar ao espectador "o que a dança pode representar em termos de laboratório vivo, como as pessoas podem se relacionar e viver juntas e reter a sua individualidade nesses tempos acelerados de globalização", diz Chantal Pontbriac, sua diretora.Chantal registrou num texto o pensamento em que apoiou o seu eixo curatorial: "O corpo está em mutação constante e em metamorfoses pelo impacto do meio ambiente, da ciência e dos novos modos de vida, e a nouvelle danse (nova dança), a fim de exprimir o que são esses novos corpos, desenvolve constantemente novas estéticas, novas idéias, daí os novos criadores acentuarem a noção de processo no seio do seu trabalho."Para ela, a referência central do 10.º Find é Merce Cunningham, a quem atribui o início desse espírito de "grande laboratório" que circula hoje na dança. "Ele foi o primeiro a ´desconstruir´ dança ao não apenas fazer a distinção entre as diferentes partes do corpo, mas também entre um bailarino e o outro, porque mesmo quando eles articulam os mesmos movimentos, não é de modo sincronizado." Além de Merce Cunningham, estão também Trisha Brown, Anne Teresa De Keersmaeker (Rosas), Daniel Marrieu, Mathilde Monnier, Lynda Gaudreau, Marie Chouinard, Paul-André Fortier, Ginette Laurin, Jean-Pierre Perrault e a geração que reúne Jerôme Bel, Xavier Le Roy, Boris Charmatz, Vera Mantero, Thomas Lehmen, Vincent Dunnoyer, La Ribot, Christine De Smedt, Russell Maliphant, Sarah Chase, Lola MacLaughlin, José Navas, Manon Oligny, Tedd Robinson, Marie-Claude Poulin e Martin Kusch. A idéia de um passado sempre presente está encarnada em dois grupos que se dedicam a reconstruir (Quatuor Albrecht Knust) ou remontar (White Oak Dance Project, dirigido por Mikhail Baryshnikov) obras clássicas do século 20.Retrospectiva - Mas as atrações desse festival não se resumem aos espetáculos. Haverá uma retrospectiva dos filmes do cineasta e compositor belga Thierry De Mey; uma exposição Les Yeux du Corps (Os Olhos do Corpo), com videoartistas e coreógrafos dos últimos 30 anos; performance e exposição com Marie-Ange Guilleminot; performances de Jean-Pierre Perrault e Christian Rizzo; performances sobre John Cage, Bruce Nauman, Dan Graham, Vito Acconci, Raymond Gervais/Malcolm Glodstein; e filmes de Matthew Barney e Sharon Lockhart, dois artistas americanos que centram o seu trabalho no corpo.Benoît Lachambre e Andrew de L. Harwood farão um projeto especial, Not to Know - Performanced´improvisation, uma maratona coreográfica, em que improvisadores como David Zambrano, Jennifer Lacey, Jennifer Monson e Kirstie Simson receberão um convidado diferente a cada noite, vindo de outras áreas, tais como artistas plásticos, visuais, músicos, iluminadores, etc. Estão previstos Laboratórios de Discussão (dedicados a refletir sobre a programação do festival em relação ao futuro da dança), Encontros do Meio-Dia (na forma de entrevistas com os coreógrafos participantes) e as Nuits du Grand Labo (Noites do Grande Laboratório), que serão comandadas pelos melhores DJs e VJs da cidade. O extenso fôlego do Find recoloca esse festival entre os mais importantes do seu gênero, aquele que agrupa eventos como o Kunsten Festival des Arts, que ocorre anualmente em Bruxelas, por exemplo, que já perceberam a falta de sentido em apenas mostrar espetáculos. A sua busca por outros formatos para reflexão sobre o corpo na sociedade de hoje deve ser louvada e revela, mais uma vez, como teoria e prática cada vez se separam menos quando o assunto em questão é a dança.

Agencia Estado,

19 de setembro de 2001 | 10h25

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