Monte Santo 50 anos depois

A cidade continua sendo aquilo que os padres capuchinhos desejavam: destino certo dos sobreviventes da caatinga

JOÃO VILLAVERDE, ENVIADO ESPECIAL, MONTE SANTO (BA), O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h07

Paris, 1886. O último imperador brasileiro, Dom Pedro II, visitava a Academia de Ciências da capital francesa e ficou surpreso quando se deparou com sedimentos que pertenciam a um dos maiores meteoritos já encontrados na Terra. Ele ficou atônito ao descobrir que a pedra original fora encontrada no Brasil - e ainda estava lá. O Meteorito de Bendengó permanecia, desde 1784, quando foi encontrado, na pequena Monte Santo (BA).

Após voltar ao Brasil, o imperador ordenou que a pedra fosse trazida do sertão da Bahia para o Rio de Janeiro. Foram necessários quase dois anos entre a ordem de Dom Pedro II e a realização de seu desejo. Quando o meteorito enfim chegou ao Rio, em junho de 1888, a filha do imperador, princesa Isabel, já abolira a escravidão no País. A monarquia estava com os dias contados.

Com o Bendengó, ainda hoje em exposição no Museu Nacional carioca, e a complexa operação de transporte montada por Dom Pedro II, a pequena Monte Santo entrara na história nacional. A relação mística criada então no município, no entanto, logo seria substituída por uma história sangrenta.

Nove anos depois de perder o Bendengó por decisão do imperador, Monte Santo viu chegar em suas terras as tropas militares da recém instaurada República. Os soldados montaram ali sua base para esmagar os beatos que seguiam Antônio Conselheiro na vizinha Canudos (BA). Enviado pelo Estado ao sertão, o jornalista Euclides da Cunha contou, em Os Sertões (1902), os detalhes do trajeto que as tropas fizeram até Canudos.

Até hoje, quem visita Monte Santo encontra uma réplica do meteorito do Bendengó e diversas imagens das tropas militares lideradas pelo marechal Carlos Machado Bittencourt no Museu do Sertão. Mas há poucos vestígios do terceiro evento que colocou Monte Santo no mapa - as filmagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, considerado um dos filmes mais importantes do cinema mundial. Cinquenta anos depois, o Estado esteve lá.

Glauber Rocha decidiu que iria filmar seu segundo e mais ousado longa-metragem em Monte Santo ainda no fim de 1962. Baiano nascido em Vitória da Conquista, Glauber entendia que a longa escadaria de pedra encravada na serra de Santa Cruz, que leva a uma pequena capela, seria o cenário ideal para a primeira metade do filme.

Aqueles degraus, que levam ao céu no meio do morro, seriam o palco perfeito para Glauber homenagear seu mestre Sergei Eisenstein. Uma cena antológica de Deus e o Diabo, quando os beatos são assassinados pelo matador Antônio das Mortes (Maurício do Vale), repete a famosa passagem da Escadaria de Odessa, em O Encouraçado Potemkin (1925), do cineasta russo.

O jovem diretor baiano encontrou dificuldades curiosas para executar seu filme em Monte Santo, como conta Nelson Motta na biografia do cineasta. Ao se depararem com Othon Bastos fantasiado de cangaceiro, muitos monte-santenses correram para suas casas, com medo de que o grupo de Lampião ainda existisse. Os moradores mais velhos tinham sido testemunhas dos confrontos entre os cangaceiros e o antigo prefeito Aristides Simões, na década de 1930.

A aparição de Lídio Silva vestido do beato São Sebastião e carregando uma cruz de madeira fez com que muitos fiéis fossem pedir bênção ao ator. E a casa onde ficou instalada Yoná Magalhães virou local de procissão - os habitantes nunca tinham visto uma mulher tão linda, e encaravam Yoná como uma santa enviada à cidade.

Hoje, 50 anos depois de Glauber e sua trupe fazerem de Monte Santo o local de nascimento de um marco do Cinema Novo, um século após as traumáticas experiências de morte e perseguição por conta da Guerra de Canudos e mais de 200 anos depois que um dos maiores meteoritos na Terra foi descoberto na região, a pequena cidade continua a ser o que os padres capuchinhos que a fundaram, no século 18, desejavam: centro de peregrinação dos sobreviventes da caatinga.

Quando o Estado passou por Monte Santo, uma passeata percorria as ruas para informar os mais de 55 mil habitantes sobre o abuso sexual de mulheres na Bahia. Barulhenta, a manifestação terminou na praça do centro do município, onde grande palco estava instalado. Ao final do episódio, no horário de almoço, o som foi desligado, e as pessoas se dispersaram. A cidade voltou a ficar calada. E a seguir seu ritmo. Quem chega a Monte Santo lê em seu portal que a cidade é "o coração místico do sertão baiano". A propaganda não é enganosa.

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