Montanhas, músicas e uma utopia possível

Ainda faltam acertos, como olhar mais para as Américas e novas tecnologias

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

O modelo de Campos do Jordão é calcado no de Tanglewood, do qual Eleazar de Carvalho participou como assistente de Sergei Koussevitzky, ao lado de Leonard Bernstein, nos anos 40. Lá conviviam concertos para turistas e atividade pedagógica.

Foi com seu guru Koussevitzky que Eleazar aprendeu a lutar pela música contemporânea, que estranhamente marginalizou em Campos. Esperamos décadas para os bolsistas terem formação musical de fato atual. Sem descuidar do brilho da grande música do passado, esta 41.ª edição leva para o palco a música contemporânea e a finca como núcleo da atividade pedagógica. Conquista inédita, funde aprendizado e concertos de modo admirável. Um reparo secundário mas importante: vem sendo excessivo o peso dado à "neue musik", sempre com uma perspectiva afrancesada demais. Quem sabe em 2011 a programação olhe menos para a Europa e mais para as Américas - continente ao qual, aliás, pertencemos e cuja produção atual precisamos conhecer melhor.

Outro acerto formidável é compreender 99,99% de nossas escolas são viveiros de instrumentistas do século 19. Excelentes músicos brasileiros fracassam em concursos internacionais porque não encaram peças contemporâneas de confronto. Por isso, Campos tem de funcionar como proposta real, e radical, de formação estrutural de músicos no País. Felizmente, começa a fazer isso, guiado por Silvio Ferraz.

A Camerata Aberta, criada no início deste ano como grupo permanente de música contemporânea, é o sinal de que o festival não mais se esgota nas quatro semanas de julho.

Faltam pequenos ajustes. Privilegiar estudantes brasileiros. Instituir outras atividades o ano inteiro, como se promete. Os concertos já são gravados e transmitidos pela Rádio Cultura FM. Mas a internet é mal usada. Numa época em que o maestro Michael Tilson Thomas ensaia via skype novas obras com seus músicos, o site do Festival de Campos nem sequer transmite via internet sua programação e as master classes ao vivo nem os coloca via "streaming" ao alcance do internauta. Não é difícil. E mudaria a vida de qualquer estudante assistir a master classes de Maria João Pires, Antonio Meneses e dos convidados internacionais. O Festival de Lugano, capitaneado por Martha Argerich, disponibiliza seus concertos em streaming desde 2002.

Ernst Bloch escreve, em O Espírito da Utopia, livro de 1917, que a música é a verdadeira linguagem da utopia, pois só ela permite a antecipação de uma vida humana desalienada. Isto é, "não somos ainda nós mesmos", diz Bloch, mas na música antecipamos essa realização futura. O filósofo francês Bernard Sève explica isso numa frase clara: "A música não é um pedaço do futuro já presente, mas uma força que garante a possibilidade real do futuro esperado."

Os músicos talvez sintam essa força em seu dia a dia. E o público, ao ouvi-la, percebe algo mágico e indefinível, que nos torna mais humanos. Nesse sentido, existe um outro festival no País, também realizado em julho, que concretiza essa utopia pacífica. Sem divulgação ou alarde, um concerto de câmara no auditório da Lira Ceciliana abriu domingo passado a 33ª. edição do Festival de Música de Prados. Entre seus 8.000 habitantes, não há família que não possua um músico. Neste e em outros palcos, o maestro Olivier Toni e um grupo de estudantes de música da USP repetem, sem remuneração, o ritual da prática musical comunitária na pequenina cidade a 500 km de São Paulo e a 26 de São João del Rey, em Minas Gerais.

A missão. Em Prados, recaptura-se o originário sentido e missão da música na comunidade. Pois lá ainda hoje se mantêm inalterados os laços entre a música e o cotidiano de seus habitantes. A música flui o ano inteiro em cada casa. Desde o Brasil-colônia, músicos e cantores congregados na Lira Ceciliana executam peças sacras de Lobo de Mesquita e Manoel Dias de Oliveira.

Como a música clássica flui da própria cidade, está no seu DNA, o trabalho é adequadíssimo. O maestro Olivier Toni há tempos costuma criticar a essência do Festival de Campos do Jordão: é postiçamente transplantado para a estância e deixa a população local à parte do evento, direcionado para turistas. Este ano, porém, ele sorri satisfeito. Campos e Prados convergem, numa utopia com que ele sempre sonhou. Silvio Ferraz, diretor artístico-pedagógico em Campos, trabalhou com Toni em Prados quando estudante. Por isso, ressalta que, felizmente, na atual edição Campos volta a dar atenção à educação musical da população de Campos.

Quem sabe um dia não se repita em Campos a utopia realizada por Toni em Prados? Quando chegou lá 33 anos atrás, a forte presença da música sacra colonial e a musicalidade ativa em cada família deram-lhe a ideia de promover o festival como forma de reforçar essa característica rara. Assim, mais do que o festival acontecer em Prados, Prados é que faz pulsar uma música local nos cursos e concertos. Ele sabe que não dá para multiplicar o formato de Prados. Mas tem consciência de que agora Campos começa a colocar nossa realidade musical no século 21 e tem tudo para concretizar outra bela e urgente utopia.

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