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Montando a árvore da vida

Brasileiro conta como foi trabalhar com o cineasta Terrence Malick

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

Como condensar anos de trabalho, mais de 350 horas de "filme bruto", em um filme de 139 minutos? Considerando que o filme em questão é A Árvore da Vida, o mais recente projeto de Terrence Malick que, entre seu segundo e terceiro filme, levou mais de 20 anos, números e qualquer esquema lógico são dispensáveis para explicar o método desse diretor. Em 40 anos de carreira, Malick realizou "só" cinco longas-metragens, mas levou por eles dezenas de prêmios, incluindo um Urso de Ouro em Berlim e uma Palma de Ouro em Cannes.

E é por isso que se torna tão surpreendente (tanto para os do time do "gostei" quanto os do time do "não gostei") descobrir que A Árvore da Vida teve nada menos que cinco montadores. Em geral, mesmo longas considerados complexos têm um montador chefe, que pode trabalhar com o diretor. Mas cinco montadores chefes (por assim dizer) que não trabalham simultaneamente, mas um após o outro, em uma espécie de "quem conta, ou corta, um conto, aumenta um ponto", é coisa digna da lista de particularidades de Malick. Entre as mais recentes, o diretor, por exemplo, não compareceu à cerimônia de entrega das Palmas de Cannes, em maio. Nem deu entrevistas. Nem dará. Mais um motivo para muito ser "pensado" e pouco "explicado" sobre A Árvore da Vida, um filme que, como bem diz o bordão, "termina de ser montado na cabeça do espectador".

Há quem diga que Malick é superestimado, quem considere A Árvore da Vida uma obra-prima e quem pensa que o diretor transcende o cinema, tornando-se um "filósofo". Há quem, como Daniel Rezende, ache que Malick o ajudou a mudar a forma de ver o mundo e a vida. Rezende é um dos cinco montadores de A Árvore da Vida. É também o único brasileiro a ter recebido uma indicação para o Oscar de montagem (por Cidade de Deus, em 2003). Responsável também pela edição Tropa de Elite (1 e 2), Rezende é dos profissionais mais prestigiados do País e conversou com o Estado por telefone, de Viena, onde mixa 360, novo filme de Fernando Meirelles, cuja estreia mundial ocorre no Festival de Toronto, em setembro.

Rezende foi o segundo montador a trabalhar em A Árvore da Vida. "Peguei o filme quando já estava com oito horas, logo depois do Billy Weber (parceiro de Malick desde seu segundo filme, "Cinzas no Paraíso", de 1978). Depois de mim, vieram outros três. Esse método único de montagem faz com que ninguém tenha o controle total do filme, nem mesmo o próprio diretor. Ele gera esse caos para ter exatamente o quer, o imponderável."

É esse imponderável que fazia com que Rezende tivesse de tudo para não gostar do filme, quando finalmente, dois anos depois de encerrar sua etapa de trabalho, assistiu ao filme no Brasil, em junho. "Acredite: eu não conhecia o longa que tinha montado! Fui com tudo para ficar prestando atenção no que "entrou" e "não entrou" do que eu fiz... Eu era mais um espectador."

E gostou ou não gostou?

Gostei. Eu me entreguei. É um filme no qual não se deve procurar uma narrativa, mas sentir. Entendo quem não gosta. Mas até mesmo as cenas de Big Bang, dinossauros, etc. eu gosto. Acho genial o fato de ele brincar com o sagrado, a mãe, e aquele pai, que simboliza a natureza. É um filme que nos faz sentir tão grandes e tão pequenos ao mesmo tempo. Quem já amou alguém não tem como não se identificar. Estamos aqui para isso. Quem gosta de cinema, poesia e coisas sensoriais vai gostar.

Em que sentido Malick mudou sua forma de ver a vida?

Em todos. Ele me tirou do "automático". Fez com que eu percebesse como, no cinema, no trabalho, na vida, a gente faz as coisas sem pensar no porquê. Havia momentos em que eu montava uma cena, ele vinha, assistia e dizia: "Não quero isso. Já sei que você sabe fazer. Agora quero que você remonte e faça algo que você não faria. Faça algo novo. Se não fizer muito nexo, mas se a gente sentir, é isso que eu quero. Sei que este filme não é para todo mundo, mas quero que a gente não necessariamente entenda, mas que sinta." Imagine trabalhar por meses pensando no "que você não faria". Se só isso ele conseguiu mudar em mim, já é muita coisa.

Houve algo específico pelo qual você ficou responsável?

Sim. Conheci o Malick em um jantar com o Fernando Meirelles em 2003. E ele comentou que o que chamava muita atenção dele em Cidade de Deus era a espontaneidade das cenas com as crianças. Muito dessa veracidade tem a ver com a montagem. E foi por isso que me chamou para montar as cenas em que as crianças são protagonistas da ação em A Árvore da Vida.

Mas a forma como ele filma é diferente da do Meirelles.

Completamente. Ele tinha regras a seguir. A câmera nunca podia tremer, nada podia estar fora de foco. Só nisso já era uma sinuca. Crianças são bem mais difíceis de se dirigir, de manter a "continuidade" dos gestos... Imagina montar... Mas foi incrível. Aliás, meu trabalho se concentrou nessa parte do núcleo da família e da infância dos meninos. Não montei nada do Sean Penn, da natureza, dos bebês. Eram os meninos já crescidos.

O núcleo familiar é a parte mais dramática do filme.

Sim. Há muitas cenas que não entraram. Até um tornado ficou de fora. Malick filmava às vezes como diálogo e usava só as vozes como voice over. Assim, como o resultado final é completamente diferente do tanto que foi filmado, o que foi rodado também é diferente do roteiro.

É o tal do imponderável, não? E para ele, trabalhar com jovens como você, não deve ter sido nada "automático".

Verdade. Ele também queria o desafio. Às vezes, ele pedia que eu mudasse uma cena e não olhava a modificação. Sabia que uma hora ia chegar nele. Dizia: "A vida é como um rio. Segue seu curso". E o filme assim o é. É o típico filme que "termina de montar na cabeça de quem vê" porque cada um agrega a ele as suas memórias, a sua leitura.

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