Montaigne no lugar do cão

Em tempos de fidelidade humana aos cachorros, um livro do filósofo francês, Sobre a Amizade, fala das relações pessoais

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2012 | 03h10

A jogada editorial é simplesmente brilhante: a subversão radical do formato dos livros de autoajuda como Um Dia Daqueles e Obrigado por Existir - aqueles do australiano Bradley Trevor Greive, que obrigam o leitor a se identificar com sentimentos de animais irracionais. De olho nos mesmos leitores, o selo Tinta Negra usa o mesmo lay out da capa desses livros, publicados pela Sextante, para oferecer, no lugar de textos superficiais, um dos maiores ensaios filosóficos escritos pelo pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592), Sobre a Amizade. Saem os cãozinhos que ilustram os livros de Greive, o verdadeiro demônio da Tasmânia, e entram - finalmente - pessoas na capa, num tempo em que os quadrúpedes são mais bem tratados que os bípedes errantes em busca de um amigo racional.

Com apresentação da psicóloga, psicanalista e filósofa capixaba Viviane Mosé, que vive no Rio há 20 anos e defendeu uma tese de doutorado sobre Nietzsche, Sobre a Amizade resiste há mais de quatro séculos como um dos grandes textos filosóficos a tratar da experiência da doação e da troca nas relações humanas. Quando Montaigne, em 1554, aceitou o posto de magistrado em Périgueux, tornando-se, três anos depois, membro do Parlamento de Bordeaux, onde encontrou seu melhor amigo, Étienne de La Boétie, não imaginava que iria se tornar o herdeiro de sua produção intelectual. Não só. La Boétie é o motivo da existência de Sobre a Amizade. Nenhum dos quatro tipos de amor - o natural, o social, o hospitaleiro e o erótico -, segundo a classificação de Montaigne, convém para definir a amizade que uniu o nobre filósofo e seu contemporâneo Étienne de La Boétie (1530-1563).

Montaigne tinha 30 anos quando o amigo, autor do livro Discurso da Servidão Voluntária, morreu, antes de completar 33 anos. La Boétie escandalizava-se com a sujeição de escravos que, por livre vontade, rastejavam aos pés de tiranos. Essa servidão voluntária seria, antes, uma espécie de doença. Montaigne o elegeu como amigo não só como homem de Estado muito além do seu tempo como pela identificação com os ideais libertários de La Boétie e por razões que a própria razão desconhece. No primeiro dos ensaios do livro, ele admite, se alguém o pressionasse a dizer a razão de seu amor, só poderia expressar isso respondendo: "Porque ele era ele e porque eu era eu".

Longe de todo o seu discurso e do que Montaigne poderia falar sobre essa amizade, conclui o filósofo, "existe uma força explicável e fatal que media essa união". Ambos se procuravam "antes mesmo de ter nos visto por causa das coisas que ouvimos um sobre o outro", revela o filósofo. Pode ter sido um decreto divino, especula: "Nós nos abraçamos por nossa reputação".

Os dois se conheceram numa grande festa e simplesmente se descobriram amigos, sem prudência ou precaução. Foi uma amizade "perfeita, indivisível", que liberou os dois de qualquer obrigação. Montaigne, como Aristóteles, acreditava que bons legisladores têm mais respeito pela amizade do que pela justiça. A posição ambivalente do filósofo sobre a monarquia, que apoiava, encontra eco, segundo o acadêmico norte-americano Eric MacPhail, nesse ensaio sobre a amizade, o primeiro dos sete que compõem o volume agora lançado pelo selo Tinta Negra.

O professor diz que Sobre a Amizade ajudou Montaigne a formular suas ideias sobre o poder político. E mais: ofereceu a ele uma "digna alternativa humanista às guerras civis e à subserviência dos cortesãos". A amizade foi, sim, seu ideal político. Já as relações familiares deixam a desejar, defende o homem que inventou o gênero ensaístico. Montaigne foi casado com Françoise de Chassaigne e teve seis filhas, das quais só uma sobreviveu. Foi um casamento arranjado. No ensaio sobre a amizade, o pensador revela todo o seu ceticismo diante da instituição, comparando-a a um negócio como outro qualquer "em que apenas a entrada é de graça". Assim que o amor entra no território da amizade, sentencia, "ele se desanima e enfraquece".

O amor entre pais e filhos tampouco pode ser comparado à amizade. As crianças respeitam os pais e estes se impõem aos filhos, mas a amizade se alimenta mesmo é da comunicação que, segundo Montaigne, não pode acontecer entre eles por causa da assimétrica relação de poder. Amizade colorida? Nem pensar. Diz o filósofo, para escândalo das feministas, que "o caráter comum das mulheres não é capaz da familiaridade e da confiança que alimentam essa santa união". Misoginia à parte, foi o homem que pelo menos pensou a amizade verdadeira entre seres humanos, cada vez mais rara na era do pet shop.

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