Montagens ambiciosas desbravam clássicos

De O Idiota a As Três Velhas, grupos ofereceram montagens reveladoras

Maria Eugênia Menezes, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Fim de ano é época de fazer listas. Compêndios para lembrar o que é oportuno deixar para trás, o que deve estar no horizonte no futuro, o que nos marcou no pior e no melhor. É ingrata a tarefa de eleger os espetáculos teatrais que se destacaram em 2010. Ingrata, porque inevitavelmente muita coisa interessante ficará de fora e porque talvez seja da natureza própria das listas que resultem falhas e incompletas. Mas sempre vale a pena tentar desvelar o que o ano que termina nos deixa de saldo.

Assistimos nos últimos meses a montagens ambiciosas. Diretores e companhias que se propuseram a desbravar obras monumentais - literárias ou dramatúrgicas - e retornaram desse salto trazendo à cena criações reveladoras de uma nova sensibilidade. Encenações - quase sempre nascidas no ambiente de teatro de grupo - que tiveram o mérito de redimensionar as convenções teatrais, de escapar das amarras da representação, de cunhar poéticas outras.

Com o seu O Idiota - Uma Novela Teatral, Cibele Forjaz deixou claro como é forte sua ascendência. Mas também como é imensa a sua capacidade de alçar voos independentes. Se Zé Celso legou-nos um dos monumentos da década com a série Os Sertões, transposição do clássico de Euclides da Cunha, a artista que começou sua trajetória como iluminadora do Teatro Oficina soube palmilhar com talento incomum o território pedregoso de O Idiota, de Dostoievski. Ao lado de Aury Porto, Luah Guimarãez e Vadim Nikitin, a diretora desdobrou a portentosa história do príncipe Mishkin em três capítulos. Não raro a adaptação de grandes obras da literatura resulta em criações sem brilho próprio. Não foi o que se viu. Na curtíssima temporada que cumpriu no Sesc Pompeia, Cibele mostrou um tour de force com tudo aquilo que sabe fazer de melhor: mobilizou a plateia, desenhou cenas de inequívoca beleza estética, confirmou sua habilidade na condução dos intérpretes. Tudo isso sem solapar as várias camadas do romance, deixando entrever os rasgos de filosofia, religião e folhetim que atravessam a ficção do escritor russo.

A confirmar o pendor e a predileção por dramaturgias contemporâneas, a companhia Club Noir entregou não uma, mas um conjunto de montagens do norte-americano Richard Maxwell. Em Tríptico, Roberto Alvim focalizou três momentos da obra do diretor da New York City Players: Burger King (1997), Casa (1998) e O Fim da Realidade (2008).

Queridinho da cena off-off Broadway, Maxwell exibe uma linguagem muito particular - tão contundente quanto anódina, tão violenta quanto monocórdia. Em suas encenações, Alvim teve êxito não só em evidenciar essa dicção do dramaturgo, na contramão das tradições do realismo, como também em reafirmar sua assinatura minimalista. Quem já conhecia sua partitura cênica pôde reencontrar burilados traços - como a luz rarefeita que lhe é característica, a lentidão na elocução, a aura de irrealidade - que o tornam um dos poucos descendentes da nobre linhagem de Claude Règy entre nós.

Montagem da Companhia Brasileira de Teatro, Vida chegou a São Paulo após uma retumbante première no Festival de Curitiba. E, aqui, só confirmou os ecos que já a aclamavam como o grande espetáculo do ano. Da arriscada intenção de vasculhar o universo de Paulo Leminski, Marcio Abreu e seu coletivo retornaram com uma montagem que escapa do biográfico e traz a poesia do autor impregnada na própria estrutura. Concebida em processo colaborativo entre o diretor e suas duas atrizes - Giovana Soar e Nadja Naira - sua dramaturgia arrebatou ao traçar uma ficção em que nada acontece, ao transportar os atores ao primeiro plano e sublinhar suas vozes. Pelas mãos de Abreu, o performativo ganhou novos contornos e a crise do diálogo - há tanto propalada - encontrou alento em solilóquios que reverberam para além da cena.

Quem coroou um ano que tanto fôlego trouxe às "novas teatralidades" foi a veterana Maria Alice Vergueiro. Ao lado de Pascoal da Conceição e Luciano Chirolli, a musa do underground dos anos 1970 revolveu o lirismo grotesco de Alejandro Jodorowsky para erguer sua aguda e festiva leitura de As Três Velhas. Seja no palco, seja na direção, Maria Alice ziguezagueou com segurança entre o riso e a densidade do drama do autor chileno. Revelou uma rebeldia que sabe se reinventar, se redescobrir. Sagrou-se grande, porque distante dos pedestais.

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