Montagem revela força dramática de Plínio Marcos

O teatro de Plínio Marcos (1933-1999) tem uma força essencial, descarnada e bruta. As peças deixam transparente o ímpeto e a espontaneidade do dramaturgo ao escrevê-las. E sua intensidade aumenta com o passar do tempo. Criadas muitas vezes para ser transitórias, imagens de um momento de turbulência, transformaram-se em retratos perenes de uma estrutura social e econômica que fecha inexorável cerco em torno do homem. A realidade fez desses textos retratos assustadores da miséria humana.Quando as Máquinas Param, de 1971, é dessa linhagem. Ao estrear, logo depois de Dois Perdidos Numa Noite Suja e Navalha na Carne, parecia destinada a retratar um instante específico, assolado por crises de desemprego resultantes de políticas governamentais desastradas. Trinta anos depois da estréia, a impressão que se tem é de que Máquinas foi escrita ontem.Em outras peças Marcos levou para o palco biscateiros, prostitutas, travestis, mendigos, cafetões, catadores de papel. Em Máquinas, os protagonistas são Zé, operário desempregado, e Nina, costureira. Recém-casados, terão todos os sonhos esmagados em tempo recorde. Isso está evidente desde a primeira cena. O que só se nota aos poucos é a habilidade do dramaturgo na condução desse casal equilibrado, afetuoso, até a exacerbação e a violência. A pressão externa, presente na vizinhança fofoqueira e na vã procura por emprego, empurram Zé e Nina para um confronto doloroso, que desemboca na tragédia. A peça não tem a estatura de obra-prima de Navalha e Dois Perdidos. Sua construção é menor, mais intimista. Os personagens limitados, sem instrução nem capacidade de se expressar, são modestos até mesmo na sua revolta. Os conflitos, no entanto, eclodem com rispidez, inflamados pela privação cotidiana. Ao jovem casal é negada a oportunidade de uma vida digna. O autor de Máquinas não retrata esse drama com isenção. Ao contrário, cria uma narrativa veemente. Se nada pode fazer para suavizar o destino áspero dos personagens, toma decididamente o partido deles, seres incapazes de se tornar sujeitos da própria história. Espaço neutro ? A montagem de Máquinas dirigida por Joaquim Goulart, em cartaz na Sala Experimental do Teatro Augusta, tem um problema. Não se entende a razão pela qual o encenador optou por uma ambientação não realista para uma peça realista. O espaço neutro, de cor acinzentada, é ocupado por duas cadeiras de design assimétrico e um móvel sobre rodas, de aspecto futurista, que faz as vezes de cama, fogão e armário. Os figurinos dos atores, em preto, também escapam do verismo cotidiano adotado pelo dramaturgo na obra.Se o espetáculo não explica a adoção de tal moldura, é bem diferente o que ocorre no terreno das interpretações. Embora inseridos em um contexto asséptico, os personagens se comportam como gente que se vê nas ruas todos os dias. A direção escapou do perigo de pedir aos atores uma atitude insólita, que combinasse com a linguagem da cenografia. Ao contrário, dando ao elenco a possibilidade de mergulhar fundo no realismo, Goulart ancorou Quando as Máquinas Param em uma raiz humana, pulsante. O trabalho do diretor, de resto, é pautado pela sobriedade e pela limpeza. Em lugar de exacerbar a tragédia de Zé e Nina, limou exageros. E acentuou o lirismo desesperançado do texto. Energia ? A encenação simples e despojada abre caminho para o que interessa: a força dramática de Plínio Marcos e a energia dos intérpretes desta produção, Cácia Goulart e Edmilson Cordeiro. Ambos estão além da idade dos personagens, que beiram os 20. Mas tal é o empenho com que se atiram ao trabalho, que não permitem ao espectador lembrar-se do descompasso cronológico. Os papéis desenhados por Plínio em Máquinas são enganosos. Parecem simples, monocórdios, mas desenvolvem-se de modo surpreendente e inesperado. Exigem dos intérpretes densidade e disponibilidade emocional para percorrer uma gama ampla e complexa de estados de espírito. A Zé cabe a maior carga nesse espectro. O rapaz suave, gentil, ganha em poucas cenas outras cores, tornando-se um homem duro que constata, impotente, seu lugar ínfimo no quadro da sociedade, passando então a destruir o pouco que construiu. Edmilson Cordeiro desenha o personagem com todas as nuances. Firme e seguro, o ator traça o percurso que vai da delicadeza desajeitada e tosca do sujeito que joga bola com moleques na rua à ferocidade de um homem perdido que faz da intransigência e da violência seus últimos escudos. Cácia Goulart comove em sua personificação de Nina. Captura com exatidão a lerdeza de idéias da moça e o otimismo sem fundamento. Trabalha com extremo cuidado o doloroso processo que a impele rumo à maturidade tardia. Somente uma atriz experiente e hábil poderia compor esse retrato da juventude desamparada e sem rumo, que Plínio Marcos sintetizou na figura de Nina, desenhada por ele com olhos de poeta. Quando as Máquinas Param. De Plínio Marcos. Direção Joaquim Goulart. Duração: 1 hora. Sexta, às 21h30; sábado, às 22h30; domingo, às 19 horas. R$ 15,00 (sábado) e R$ 10,00. Teatro Augusta. Rua Augusta, 943, tel. 3151-4141, 3151-2464. Até 16/12.

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