Montagem recupera "Ópera dos 3 Vinténs" original

O centenário do compositor alemão Kurt Weill, completado no dia 2 de março, será comemorado com a montagem original da Ópera dos Três Vinténs, sua primeira parceria com Bertolt Brecht e grande sucesso desde a primeira apresentação, em 1928, no teatro Berliner Ensembler. O espetáculo estréia nesta quarta-feira no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, com o objetivo de repetir até a atmosfera que os autores tentaram imprimir à obra, feita para espaços pequenos, sem a monumentalidade geralmente associada às óperas.André Heller, que assina a montagem, buscou as partituras originais, tanto dos arranjos quanto das vozes, que Weill escreveu e que foram modificadas já nas primeiras apresentações. "Por vaidade ou particularidades dos cantores, ele suprimiu algumas árias ou mudou quem as cantava", lembra Heller. Para ele, é um erro o nome de Brecht vir sempre na frente do de Weill quando se fala na Ópera dos Três Vinténs. "Brecht só adaptou o libreto; dizer que ele é o autor dessa ópera é o mesmo que atribuir Madame Butterfly a Illica, autor dos versos, e não a Puccini, que compôs a música."Adaptação - A Ópera dos Três Vinténs é sucesso em qualquer versão. Estreou no Berliner Esembler, um teatro estatal quando Weill já era compositor consagrado. Era uma adaptação da Ópera dos Mendigos, de John Gay, escrita 200 anos antes e que usava elementos de música popular em sua concepção. Desde então, teve inúmeras versões, incluindo a Ópera do Malandro, de Chico Buarque de Hollanda, que ´abrasileirou´ a obra mas manteve suas canções (ou árias) principais, os clássicos Balada da Obsessão Sexual (que não foi cantada na estréia porque a cantora Lotte Lenya, mulher de Weill, achou obscena) e Mac the Knife.Na sua montagem, André Heller não levou em consideração a versão de Chico Buarque. "Adoro a Ópera do Malandro, mas esta é posterior à Ópera dos Três Vinténs, que já é uma adaptação de outra", explica o diretor. "Nessa montagem, preferi dar mais ênfase à música do que ao texto, suprimindo algumas falas."Para isso, chamou o UFRJazz, grupo formado dentro da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e integrado por um naipe de 13 cantores líricos, encabeçados por Lício Bruno (barítono), Ruth Staerke e Flávia Fernandes (sopranos) e Regina Elena (meio-soprano). Eles se debatem contra a moral pré-nazista e são atuais até hoje. "É interessante que apesar dos nomes que esta obra já teve, os mendigos ou malandros não aparecem e os personagens pertencem à burguesia", conta Heller. "Na montagem de 1928, a ação situava-se no início do século 19, mas preferimos trazê-la para os anos 20 deste século para sermos fiéis ao espírito de Kurt Weill e Brecht."A Ópera dos Três Vinténs foi o primeiro - mas não o único - grande sucesso da dupla. Eles repetiram a dose em outros trabalhos e, mesmo quando se exilaram nos Estados Unidos, nos anos 30, fugindo do nazismo, continuaram a trabalhar juntos. A diferença é que, enquanto Brecht teve dificuldade em adaptar-se ao show biz e ao modo de vida americano, Weill se integrou perfeitamente, a ponto de trocar a ópera pelos grandes musicais e tornar-se parceiro dos papas da música americana, como Cole Porter e Ira Gershwin. "Weill pode ser considerado o pai da canção e do musical nos Estados Unidos", ensina Heller. "Por isso é importante mostrar sua obra como ele a imaginou."

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