Montagem recria sertão e sintaxe de Guimarães Rosa

Depois de algumas apresentações-relâmpago, pela primeira vez chega à cidade para uma temporada de um mês no Centro Cultural São Paulo o espetáculo Vau da Sarapalha, sem dúvida - e sem exagero - uma das mais bonitas encenações entre as já criadas nos palcos brasileiros em todos os tempos.Adaptação do conto Sarapalha, de João Guimarães Rosa dirigida por Luís Carlos Vasconcelos com atores do Grupo Piollin, o espetáculo estreou em 1992 na sede da companhia em João Pessoa, na Paraíba. Desde então, sem nenhuma substituição no elenco, uma raridade nesses casos, Vau da Sarapalha vem fazendo temporadas ou participando de festivais no Brasil e no exterior, sempre com excelente aceitação tanto por parte da crítica especializada quanto do espectador comum.A trama central de Sarapalha é aparentemente simples. No sertão mineiro, em uma região inteiramente tomada pela maleita, vivem os primos Ribeiro (Everaldo Pontes), dono de um pequeno sítio, e Argermiro (Nanego Lira). Com eles, apenas o cachorro vira-lata (Servílio Gomes) e a negra Ceição (Soia Lira) que cuida da casa, das galinhas no quintal e serve aos dois primos a dose diária de quinino, para amenizar a sezão, o forte acesso de febre causado pela malária.A rotina é quebrada quando, ao pressentir a iminente morte do primo Ribeiro, Argemiro resolve fazer uma confissão ao parente: ele decidira trabalhar na propriedade do primo por alimentar um amor platônico por Luíza, mulher de Ribeiro. Algum tempo depois de sua chegada ao sítio do primo, Luíza fugira com outro homem.Desde então, ambos vivem dias iguais, sem jamais tocar no nome da traidora, mas sem igualmente abandonar o sítio, mesmo ameaçados pela mortal malária. Esperam por ela? Talvez. Prevendo que aquele não será um dia como os outros, a negra Ceição, espécie de vidente capaz de "ler" o futuro até nos cacos de uma jarra quebrada, faz tudo o que pode para evitar a fatídica confissão.Exatamente como ocorre nos contos de Guimarães, a beleza da criação reside não só na aguda observação do comportamento humano, sem dúvida uma de suas grandes qualidades, mas também na linguagem, na elaboração da história. Vasconcelos conseguiu a proeza de transpor a complexa sintaxe de Guimarães para o palco, recriando - com surpreendentes recursos cênicos, o gesto dos atores, a trilha sonora, cenário e figurinos - a ambiência do sertão.Foram dez anos maturando a idéia. O diretor conta ter chorado muito na primeira vez que leu o texto. "Voltava a chorar toda vez que lia e, por isso, levei anos até criar coragem para levá-lo ao palco; tinha um medo enorme de não dar conta daquela qualidade de linguagem, daquele universo de emoções."Sem nenhuma idéia preconcebida, resolveu estimular a criação dos atores, a partir de alguns estímulos. Entre os exercícios para a criação do espetáculo, os atores ficaram dias em silêncio no meio da mata, absorvendo os sons da floresta. Também fizeram associações com animais para cada um dos personagens. Nanego Lira compara o frágil e sensível Argemiro a um pássaro. "Já o primo Ribeiro vai mais para o lado do cachorro."No caso dos dois personagens, são inspirações internas, importantes no processo, porém imperceptíveis para o público. O que os atores conseguem trazer muito claramente para o palco é a rica relação entre os dois personagens, cheia de contradições, envolvendo afeto, dependência mútua e, principalmente, triangulada pelo amor e pela traição de Luíza (que não aparece em cena). "Vasconcelos foi uma espécie de maestro, editando o material que íamos criando", afirma Lira.No palco, gravetos, fogo e muitos, muitos sons de pássaros e bichos do sertão. Não há play-back. Toda a riquíssima partitura sonora do espetáculo foi criada pelos atores e é por eles executada em cena, com a ajuda especial do músico Escurinho, que também faz uma participação como o capeta. "Escurinho passou a integrar o grupo já no meio do processo de ensaios", diz Nanego Lira. "De início, Vasconcelos queria que Soia fizesse todos os sons, mas chegou à conclusão de que seria impossível."Negra Ceição ganhou força no palco, solução do diretor diante da quase ausência de ações físicas no conto original, no qual a maior reviravolta ocorre no interior dos personagens. Os primos passam a maior parte do tempo de cócoras, enrolados em seus lençóis. "Soia observou os movimentos das galinhas, que acabou incorporando aos próprios movimentos." A atriz emite sons incompreensíveis. "Nada mais é do que uma extensão de resmungos de velhos, indecifráveis para a gente", diz Lira. "Quando vejo aquele passinho miúdo de Soia em cena, parece-me estar vendo nossa avó", comenta o ator, irmão da atriz.Impressiona a criação de Gomes no "papel" do cão vira-lata. Entre os muitos admiradores desse trabalho, está o cineasta Walter Salles, que prestou uma homenagem ao espetáculo no filme O Primeiro Dia, protagonizado por Fernanda Torres e Luís Carlos Vasconcelos. Numa das cenas de abertura do filme, o cachorro Servílio aparece num monturo de lixo. "O teatro é uma arte efêmera e essa foi uma forma de registrar esse trabalho para sempre", comenta Lira. "Salles já tinha filmado uma cena com o cachorro para Central do Brasil, mas acabou não entrando; em O Primeiro Dia, a cena encaixou bem."Vau da Sarapalha - Drama. De Guimarães Rosa. Adaptação e direção Luis Carlos Vasconcelos. Duração: 55 minutos. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 12,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000. 3277-3611. Até 19/11.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.