Montagem passeia pela história da comédia popular

Um projeto ambicioso uniu o escritor Luis Alberto de Abreu e a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, dirigida por Ednaldo Freire: retomar a vertente da comédia popular, seguindo o caminho trilhado por Ariano Suassuna, Artur de Azevedo e Martins Pena.Peças como Burundanga, O Anel de Magalão, Sacra Folia e O Parturião nasceram dentro do projeto Comédia Popular Brasileira, que recebeu o Prêmio Especial da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi também indicado para o Prêmio Shell. Dirigidas por Freire com a Fraternal, essas peças de Abreu, além de divertidíssimas, incorporaram ao tradicional repertório de personagens como Briguelo, da Commedia Del´Arte; Sganarello, de Molière; o Chicó e o João Grilo de Suassuna, novos tipos como o mineirinho esfomeado João Teité, a negra Benedita, a megera Boracéia e o autoritário Coronel Marruá.Quem ainda não conhece esses personagens - e principalmente quem viu e aplaudiu os espetáculos anteriores - não pode deixar de ver Masteclé, Tratado Geral da Comédia, de Luis Alberto de Abreu, que estréia na sexta-feira no CCSP, sob direção de Freire, com a Fraternal. O título é uma brincadeira com a expressão Master Class e o ponto de partida é realmente uma aula sobre os fundamentos da comédia popular.Um professor universitário, interpretado por Aiman Hammoud, é o titular da palestra. Antes mesmo de iniciá-la, avisa que desde a juventude pesquisa a comédia "para melhor conhecer seus vícios e seu potencial corruptor de costumes". Mas adverte não gostar de comédia, não ter senso de humor e que o riso, para ele, é apenas um objeto de estudo, não tendo pela comédia o apreço que lhe devota "o poviléu, a plebe, o povinho ordinário das ruas".Na verdade, Abreu faz citação ao palestrante de Os Malefícios do Tabaco, de Chekhov, um homem obrigado pela mulher a fazer uma conferência. "Há muitas referências a outras peças e autores, afinal, a paródia faz parte dos fundamentos da comédia." Entre elas, Seis Personagens em Busca de um Autor de Pirandello, uma vez que os personagens João Teité (Ali Saleh), Benedita e Boracéia (ambas vividas por Mirtes Nogueira) interrompem a palestra e discutem com o conferencista.A peça contrapõe a visão erudita da comédia, por meio das teorias, como a de Mikhail Baktin e Luís da Câmara Cascudo - que fundamentaram o projeto - com a ação dos personagens, que "traduzem" cenicamente as teorias do palestrante, ainda que contra sua vontade. "O que provoca o riso?", pergunta o acadêmico. Segue-se uma requintada - e claríssima para o público - explicação, infelizmente, para o acadêmico, sempre interrompida pelos personagens.Entre eles, novas criaturas de Abreu, como Bocarrão (Edgard Campos), um abominável zelador do teatro, um daqueles burocratas sempre desejosos de terminar mais cedo o expediente, irritado com o barulho e a indisciplina de público e artistas. "Essa figura autoritária é bastante conhecida dos artistas, encontrável em muitos teatros", comenta Abreu.Bocarrão irrita-se com alguém que ri mais alto na platéia e ameaça tirá-lo a força do teatro. "Ele não sabe, mas é um personagem cômico", observa o acadêmico. "Ninguém aqui acredita realmente que ele seja capaz de fazer o que promete. Rimos disso." Mas ao ser definido como um tolo, cuja raiva é ilógica, Bocarrão rebela-se e volta sua irritação também contra o acadêmico, cuja palestra quer ver terminada o mais rápido possível.A peça proporciona ao público um verdadeiro passeio histórico pela comédia, trazendo ao palco até mesmo Bica-Aberta, mulher do gigante Garganua, mãe do personagem Pantagruel, protagonista da comédia homônima de François Rabelais. Ao sair do teatro, além de certamente ter dado boas gargalhadas, o espectador poderá ainda se orgulhar de conhecer a "topografia dos gêneros" do pesquisador Bakhtin, "explicada" pelo acadêmico.Masteclé passa em revista toda a investigação realizada por Abreu para o projeto Comédia Popular Brasileira", diz Freire. E a Fraternal já prepara um novo espetáculo, também com texto de Abreu, Stultífera Navis, com previsão de estréia para setembro, graças ao apoio recebido do governo do Estado de São Paulo, por meio do Prêmio Estímulo Flávio Rangel. Felizmente, para o teatro brasileiro, a renitente Fraternal decidiu seguir em frente, mesmo depois de perder o apoio da multinacional que vinha patrocinando a companhia.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.