Montagem explora tensão sexual de "Romeu e Julieta"

O diretor William Pereira estámexendo com a libido dos adolescentes que freqüentam o TeatroPopular do Sesi, em São Paulo. Sua montagem de Romeu eJulieta, de William Shakespeare, é tensão sexual pura. Não queo texto do dramaturgo bardo não seja assim: é trágico, lírico,dramático, mas também erótico, libertário, insinuante. Aoencenar esse clássico da dramaturgia universal, Pereira fez suaescolha - e o caminho foi acertadíssimo. A platéia,prioritariamente formada por jovens na idade de beijar, ficar,transar, pegar e tantos outros verbos quentes, vive momentos deeletricidade e êxtase.As disputas entre as famílias Montecchio e Capuleto sedão nesse campo do sexo à flor da pele. Os rapazes agem comofogo ardendo: se tocam, se provocam, se esfregam, trocam farpasabsolutamente obscenas e gestos abusados. A ambigüidade, própriada adolescência que tateia rumos e campeia definições, dá o tomna guerra familiar. As batalhas se dão com os poros abertos elatejantes.Um dos personagens é exemplar nesse sentido (e, não àtoa, ganha os aplausos mais efusivos no final): trata-se dodespudorado Mercúcio, sempre o favorito das platéias quando oencenador faz a coisa certa. Ele é interpretado com o calor dosbaixos ventres por Fabiano Augusto, que compõe o personagementre um pop star andrógino e uma drag queen irada. "A funçãodramática de Mercúcio é extremamente importante, porque opersonagem nos protege de nossa própria ansiedade erótica pelaperdição", escreveu o ensaísta shakespeariano Harold Bloom. Namontagem do Sesi, ator e diretor entenderam Mercúcio na suaessência.Julieta (Ana Fuser) aparece como uma garota safada. Nãotem rosto angelical. Tem estilo e atitude. Ri descontroladamente, um riso nervoso, quase depravado, demonstrando que não sustentaa menor vocação para donzela reprimida.O Romeu de Edu Reyes, no único trecho em que aparece semcamisa, sugerindo que dormiu com Julieta, é ovacionado em cenaaberta, com uivos de garotas no cio - e tem de vestirimediatamente o figurino, escondendo o torso diante de tãodescontrolada volúpia que brota daquela platéia desvirginadapelos jogos teatrais de um espetáculo bem-sucedido.A magia do teatro se instala com plenitude nesseespetáculo inteligente. O encenador decidiu-se por um rumo e foiaté o fim nele, sem fazer concessões. E essas suas escolhas nãoficam só no campo sexual, vertente inegável no texto deShakespeare e um terreno importantíssimo para fisgar a empatiados teens. No final da peça, fica clara outra forte opção: odiretor se nega a sugerir a conciliação entre as famíliasrivais.Nem a morte dos jovens amantes diminui a tensão secularque pesa sobre os adultos de Verona e, de resto, sobre o mundo.A guerra há de continuar, com mais batalhas, atentados, bombas eoutras obscenidades. Falta muito para que reine a tolerância nospalcos da vida. William Pereira apresenta William Shakespeareaos adolescentes de São Paulo e não há a menor chance de queessa ardende experiência teatral passe incólume pela rotina decada um deles.Romeu e Julieta. Sáb. e dom., às 15 h. Grátis(ingressos devem ser retirados com 1 hora de antecedência).Sesi. Av. Paulista, 1.313, São Paulo, tel. 3146-7405. Até1.º/12.

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