Montagem de "SubUrbia" é ágil e envolvente

O estacionamento de uma loja de conveniência é ponto de encontro de jovens em ebulição, que passam pela crise da chegada à idade adulta. O drama da turma poderia acontecer em muitos lugares do planeta, mas se passa em uma cidade qualquer de subúrbio dos Estados Unidos, nos anos 90. Seus protagonistas são perdidos, amargos, confusos e ambiciosos. Isto é SubUrbia, texto do ator e dramaturgo Eric Bogosian, que estreou semana passada em São Paulo no Teatro Sesc Anchieta.Tramas sobre jovens em conflito existem aos milhares. O tema forneceu munição para roteiros de filmes, romances, textos teatrais, musicais, histórias em quadrinhos, canções. O que torna SubUrbia especial é a qualidade de sua dramaturgia. Bogosian produziu um texto vigoroso, contundente, povoado por gente real, contraditória, tocante.Álcool, brigas, droga - É uma história de desencontros, de tentativas desesperadas dos personagens para fugirem do cotidiano asfixiante. Eles bebem, brigam, agridem-se, sonham, usam drogas, fazem planos para deixar a cidade. Jeff, garoto comum, sua namorada Sooze, candidata a artista, a amiga dela, Bee-Bee, recém-saída de um reformatório, e os amigos dele, o turbulento Buff e o desencantado Tim, formam a turma da esquina, que espera pela chegada de Pony. Ex-integrante do grupo, Pony foi embora da cidade, mudou-se para Los Angeles, tornou-se cantor, vendeu 90 mil discos e está perto de virar pop star.Quando aparece na esquina, depois do show na cidade natal, Pony vem acompanhado por sua assessora de imprensa, Erika, garota rica e mimada. A presença do cantor vai catalisar tensões e destruir o precário equilíbrio da turma. E há ainda Nazeer e Pakeesa, irmãos paquistaneses, donos da loja de conveniência, que hostilizam e são hostilizados pelos integrantes do grupo.Tensão e fluência - O diretor Francisco Medeiros fez de SubUrbia um ótimo espetáculo. Usando muito bem o sensacional cenário de J.C. Serroni, apoiado pela exata trilha sonora de Zero Freitas e pela iluminação simples e funcional de Wagner Freire, Medeiros criou uma montagem tensa, fluente, que navega com desenvoltura na esteira do dinamismo da peça. Encenador seguro e hábil, fiel aos ritmos e às modulações da peça de Bogosian, o diretor construiu um trabalho poderoso, que captura a atenção do público.SubUrbia poderia ser apenas um texto americano sem qualquer nexo com nossa realidade, como acontece tanto com peças estrangeiras encenados por aqui. Mas a falta de perspectivas, o vazio, a melancolia dos personagens de SubUrbia (não por acaso a peça nasceu quando seu autor estudava As Três Irmãs, do autor russo Anton Chekhov) têm um alcance universal que leva o texto a atravessar fronteiras com facilidade. Não é a juventude dos Estados Unidos ou do Brasil que está em questão no trabalho, mas a condição humana reagindo a certos condicionamentos que hoje valem em uma grande parte do planeta globalizado.Elenco bem preparado - O elenco da montagem foi muito bem preparado. Os jovens atores dão plena conta dos difíceis papéis. Beto Magnani desenha na medida certa o simpático e covarde Jeff. Karina Barum dissolve-se no papel da tristonha e destrutiva Bee-Bee. Júlio Pompeo traça um retrato sensível do frágil Pony. André Custódio e Rita Martins dão um show como os paquistaneses. Presos no aquário formado pela loja de conveniência, Rita, magnífica atriz, e André, promissor estreante, criam um fascinante espetáculo dentro do espetáculo.Ao ver a vigorosa Rosana Seligmann como Sooze entende-se por que Jeff e Pony estão a fim dela. Bárbara Paz vive com brilho a fútil Erika. Marcos Damigo leva para o palco todo o brilho negativo, a agressividade amarga de Tim. Ator poderoso, Damigo vem crescendo a cada montagem. E Luciano Gatti, que interpreta Buff, é uma revelação. O ator, com notável presença de cena e intensa simpatia, cria um personagem expansivo, vazio, escatológico, inconseqüente. Dominando com segurança os tempos cômicos, Gatti, um talento explosivo, delicia a platéia.Suburbia ? Teatro Sesc Anchieta (R. Dr. Vila Nova, 245, tel.: 256-2281). De 5.ª a sáb., 21 h, dom., 20 h. De R$ 7,50 a R$ 15. Até 4 de março.

Agencia Estado,

27 de janeiro de 2001 | 20h52

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