Montagem confronta o teatro e a guerra

Clausewitz, o judeu polonês que chega ao posto de imigração no Rio, nos estertores da 2.ª Guerra, diz ao homem que controla a emissão de salvo-condutos a estrangeiros: "O que eu sou é tudo o que tenho." A frase significa que o personagem não traz ao novo país bagagem, pertences, nada, além de sua experiência, daquilo que seus olhos viram e seu coração sentiu. Clausewitz confronta com Segismundo, que logo o desafiará: "O senhor tem dez minutos para me fazer chorar." Este é o nó da fábula de teatro Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil e direção de Ariela Goldmann, que estréia hoje.Escrita para o projeto Ágora Livre Dramaturgia, tem no elenco com Jairo Mattos (Segismundo) e Dan Stulbach (Clausewitz). A iluminação é de Gianni Ratto. A peça foi escrita logo após os atentados do dia 11 de setembro e se transformou num testemunho vivo. "Os tempos são assustadores não pelo que mostram, mas pelo que deixam de mostrar. E o teatro nasce dessa sensação difusa, de não se saber bem o que está acontecendo", diz o dramaturgo. Trata-se de um texto curto, de alta fervura dramática e crivado de ambigüidades.Novas Diretrizes se passa no dia 18 de abril de 1945, fim dos combates na Europa, embora o Brasil ainda esteja tecnicamente em guerra até que seja selado o armistício e cheguem as novas diretrizes para os tempos de paz. Por enquanto, todo imigrante deve portar salvo-conduto para poder ficar no País. Polonês refugiado e ator que resolveu abandonar a profissão para tentar a vida como agricultor, depois de vivenciar os horrores da guerra, Clausewitz chega ao posto de imigração brasileira para conseguir seu salvo-conduto.O argumento de Clausewitz para justificar o abandono da profissão é claro: "O teatro nunca vai falar do mundo que eu vi." Aprende sozinho a língua portuguesa, por achar que é um idioma sem violência, mas depara à entrada com Segismundo, ex-torturador da Polícia Política do Estado Novo. Apesar de receber centenas de estrangeiros que passam pelo posto, horrorizados com a guerra, nada lhe toca. Último estrangeiro a ser atendido naquele dia, Clausewitz é barrado porque Segismundo desconfia que ele seja um espião nazista. "O senhor tem dez minutos para me fazer chorar ou embarca de volta." Se for feliz no intento, Clausewitz ganhará o salvo-conduto."Trata-se da relação de dois personagens num espaço que imaginei quase vazio, privilegiando o que é o mais importante da fábula: ouvir a história", atesta Ariela Goldmann. "Por meio de tempos e silêncios, o espectador é convidado a entrar no espetáculo." Ariela também ressalta que sob uma segunda camada, o texto contempla a relação ator-espectador. "Segismundo dá dez minutos para que Clausewitz o faça chorar. Não é essa a urgência que o teatro vive hoje? A gente vive amortecida, pelo prazer ou pela tragédia. Nesse sentido, o teatro, o artista, têm essa função, de conseguir fazer o outro desamortecer." Há referências que Bosco chama de suas obsessões e estão presentes nas falas dos personagens: trechos de Titus Andronicus (Shakespeare), A Vida É Sonho (Calderon de la Barca), além de homenagens discretas aos estrangeiros que ajudaram a fazer a história do teatro no Brasil, como Ziembinski, Anatol Rosenfeld e Gianni Ratto.Novas Diretrizes em Tempos de Paz. De Bosco Brasil. Direção Ariela Goldmann. Duração: 40 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 20,00. Ágora. Rua Rui Barbosa, 672, tel. 3284-0290. Até 24/2.

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