Montagem de época

Próxima novela das 6 da Globo garimpa antiguidades para contar uma história de 1903

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h11

Mais de 3 mil quilômetros separam o Rio de Janeiro de São Luís, no Maranhão. Mais de um século distancia o calendário atual de 1903. Mas, na tela da Globo, a nova novela das 6 fará o espectador crer que a São Luís de hoje é o Rio de Janeiro do início do século 20. Obra da computação gráfica? Longe disso. É coisa de produção e direção de arte, sim senhor, setor responsável por tornar um cenário absolutamente crível para a plateia de uma produção audiovisual.

Para quem vive do ofício, história de época é, com perdão do lugar-comum, um prato cheio. Lado a Lado, o folhetim em questão, marca a estreia de Nininha Médicis como produtora de arte de um enredo de outros tempos. Com títulos como Insensato Coração, Paraíso Tropical e Brado Retumbante no currículo, ela comanda agora toda a concepção de cartazes usados para encobrir os traços modernos vistos em São Luís, as flâmulas e bandeirinhas de tecido, todas submetidas a um demorado processo de envelhecimento, para as gravações de uma autêntica festa de carnaval de rua do Rio nos anos 1900. "A gente escondeu tudo o que tinha de marca e referências de marcas", conta Nininha ao Estado.

Após as gravações, aí sim, resquícios de casas modernas e fiação vazados em cena são apagados com o trabalho de computação gráfica, mas esse é um expediente de acabamento, nunca o ponto de partida para a produção da cena.

Até por isso, o diretor de núcleo Dennis Carvalho precisava fugir do grande canteiro de obras em que se transformou o Rio de Janeiro, cidade em construção para Copa e Olimpíada. "A gente foi para São Luís duas vezes antes de gravar e marcou todos os pontos" que deveriam ser maquiados, conta Nininha. A cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio, também serviu aos anseios de Dennis Carvalho para algumas das primeiras cenas do folhetim.

"Novela de época é bem diferente de novela atual", argumenta ela. "É preciso mandar produzir toalhas de mesa, de banho, guardanapos, tudo com renda e monogramas bordados. São toalhas de linho, não felpudas, e a gente não encontra isso para comprar, tudo tem que mandar fazer." Para a barbearia de Milton Gonçalves, a equipe comprou navalhas antigas e envelheceu outras. Para encontrar talheres e outras peças de decoração, percorreu feiras de antiguidade entre Rio e São Paulo. Para dar o acabamento necessário a cada item, mergulhou em pesquisas e mais pesquisas de fotos da época.

Vendem-se carruagens. Os pequenos detalhes bem fazem a alegria de espectadores atentos, cuja diversão é assistir a novelas apenas em busca de possíveis erros nesses quesitos. Mas a missão da produtora de arte se estende a peças de grandes proporções, caso de uma carruagem, por exemplo. Em função da novela, a Globo comprou sete veículos do gênero. E onde se encontra carruagem para vender? "A gente tem uns fornecedores que trabalham sempre para a Globo. Depois de encontrar a carruagem, ela vai para a fábrica da Globo, onde fazem o estofado, o lampião..." Quatro carruagens e um tílburi ganharam acabamento para entrar em cena.

E pense só nos rótulos, de latinha de talco a garrafa de bebida. Imagine os exemplares trazidos pelo garoto que vendia jornal nas ruas do Rio. Calcule como seriam as placas vistas nas fachadas de cada estabelecimento. Todos esses traços são expediente do pessoal da arte. No carnaval de rua encenado na capital maranhense, Nininha providenciou enfeites de flor em papel e fita, também lhes dando aspecto envelhecido. E dá-lhe colorjet dourado e papel crepom "para não ficar com cor muito viva".

O trabalho da produção de arte depende diretamente de outras duas áreas da empresa: a cenografia e o jurídico. Basta dizer que a equipe de Nininha assinou a decoração da confeitaria Colonial, local inspirado na tradicional confeitaria Colombo, ícone do centro do Rio. A construção, na cidade cenográfica erguida no Projac, foi obra da turma da cenografia, claro, mas, na hora de providenciar louças, guardanapos, toalhas e placas ali ostentadas, é o time da arte que entra em campo para se certificar de que os nomes fictícios não têm proprietários na vida real. Só então é que os desenhos são consumados e confeccionados.

Primeira novela em que João Ximenes Braga e Cláudia Lage assinam como titulares, Lado a Lado resgata o contexto da primeira geração de negros nascidos livres no Brasil, o início da emancipação feminina, o nascimento das favelas no Rio e a chegada do futebol. Com Lázaro Ramos, Camila Pitanga, Marjorie Estiano, Tiago Fragoso e Patrícia Pillar, estreia dia 10, às 18h.

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