Montada a mais nova instalação de Alice Aycock em Nova York

'Cyclone Twist' é uma série de fitas espiraladas de alumínio branco

Ted Loos , The New York Times

21 de março de 2014 | 14h19

Buzinas soavam na Park Avenue com Rua 57 pouco antes da meia-noite no fim da semana passada enquanto um enorme guindaste, bloqueando o tráfego, erguia metade de Cyclone Twist, uma série de fitas espiraladas de alumínio branco, para o seu lugar, conectando-a precisamente com a outra metade já instalada na estreita faixa divisória da avenida. O resultado foi suficientemente impressionante para os trabalhadores registrarem o feito com fotos de seus celulares.

“Querido, estou no céu”, disse Aycock, 67 anos, que estava supervisionando a instalação de um conjunto de sete enormes estruturas de alumínio e fiberglass. Chamada Park Avenue Paper Chase, e estendendo-se da Rua 52 à 66, ela se inspira em tornados, movimentos de dança e dobras de cortinas, e permanecerá instalada até 20 de julho.

“Quando é que alguém na minha idade consegue algo assim?”, ela acrescentou. “É como a Piazza San Marco de Nova York.” “Maelstrom”, uma montagem de fitas de alumínio que se estende por quase 21 metros perto do Seagram Building, tem a maior área de chão de todas as esculturas na história do programa de arte deste famoso corredor, iniciado em 1969. As peças são apresentadas pelo Comitê de Escultura do Fundo para Park Avenue e o Departamento de Parques e Recreação de Nova York.

“A ideia é um grande vento que se desloca de um lado para outro na avenida, e que ele cria as formas, ou sopra as formas, e as deixa na sua esteira”, disse Aycock, uma artista intensa e aguerrida que é também uma espécie de dervixe. Como é de praxe com obras públicas, nem todo o mundo as aprecia. “Não me importo de ocuparem tanto espaço, mas preferia um arranjo de flores – alguma coisa natural”, disse Courtney Nelson, que passou por “Maelstrom” na segunda-feira, o primeiro dia útil depois de a escultura ter sido completamente instalada, em seu horário de almoço.

“Achei horrorosa”, disse Irene Stolzer. “Não combina com a Park. Ela me lembra aquelas rosas de papel em Chinatown.” Os defensores também foram incisivos, “Ela quebra a monotonia do centro”, disse Eric Rolfsen. “A arte pública tem de ser grande – isto é Nova York.” Aycock já enfrentou uma opinião pública dividida anteriormente, como em sua escultura de 1992 que sugere uma antena de satélite no telhado da 107ª Delegacia de Polícia em Flushing, Queens . Alguns moradores disseram que a peça lhes parecera um aparelho real de vigilância. (Não é – a escultura pretende simbolizar a comunicação entre a polícia e a comunidade).

Mais recentemente, Aycock acertou uma disputa legal com os operadores do Terminal 1 do Aeroporto Kennedy. Eles queriam desmontar sua enorme obra Star Sifter, terminada em 1998. No ano passado, eles fizeram um acordo pelo qual ela reconfigurou a peça que foi deslocada para outro ponto do terminal.“Eu sou dura na briga quando é preciso”, disse Aycock. “É isto que eu faço, é isto que eu sou, e se você tirar isso, eu simplesmente evaporarei. Em outras palavras, esta é a minha identidade.” Park Avenue Paper Chase está sendo financiada pela dealer de Aycock, a Galerie Thomas Schulte baseada em Berlim, e outro investidor alemão, em mais de US$ 1 milhão, disse Schulte, com alumínio doado pela Alcoa. As obras serão vendidas no final, bem como versões menores de cada peça.

Aycock, cujos trabalhos estão na coleção do Museu de Arte Moderna e no Museu Whitney de Arte Americana, fez nome criando um híbrido de arquitetura e escultura. Mas sua obra evoluiu de bordas mais ásperas a uma pátina mais brilhante, com referências celestiais e, com frequência, um aspecto de Construtivismo Russo vertical como a torre não construída de Vladimir Tatlin, Monumento à Terceira Internacional, que ela citou como uma obra influente.

“Eu admiro o fato de ela continuar combativa e não ficar parada”, disse Adam D. Weinberg, diretor do Whitney Museum. “Esta é marca de um grande artista.” Aycock, instalada no SoHo, cresceu em Harrisburg, Pensilvânia. “Ela teve um pai no ramo da construção, que construiu coisas enormes”, disse Robert Hobbs, que leciona história da arte na Virginia Commonwealth University, e é o autor de Alice Aycock: Sculpture and Projects.

Ele continuou: “Toda noite ele lhe dizia, ´Você precisa fazer algo que me surpreenda e me fascine`. Mas agora é ela que se surpreende”. À medida que ela mostrava sua obra ao mundo do centro da cidade nos anos 70, era difícil não notar que ela era, com frequência, a única mulher em cena, disse Aycock – mas ela mesma não percebia.

“Um dia, meu pai disse, ´A rejeição pode ser muito útil`”, ela comentou. “Você deve tentar não ter ressentimentos porque eles bloqueiam o caminho das boas realizações.” Essa atitude resultou em cerca de 32 instalações públicas. “Suas obras dos anos 70 e 80 eram absolutamente extraordinárias”, disse Weinberg.

“Mas como muitas delas eram específicas de local e em espaços vastos, há uma enorme porção de sua obra que só é conhecida por fotos e livros, e isso deve magoá-la um pouco.” Schulte admitiu que a carreira de Aycock havia dado uma espécie de “mergulho” após os anos 80. “Depois disso ela aprendeu muito sobre a vida e seus caminhos, mas isto a fez ser o que ela é hoje”, disse Schulte.

Aycock não é representada por nenhuma galeria de Nova York apesar das exposições solo como a do ano passado no Parrish Art Museum em Water Mill, Nova York. Park Avenue Paper Chase é sua chance de lembrar o mundo de que ela ainda é capaz de fazer coisas grandes. Aycock se comparou a Waltzing Matilda, a única peça em fiberglass do seu grupo, que lembra mais as dobras de uma cortina que um tornado.

“Se você ouvir a canção Waltzing Matilda, de Tom Waits, ele está rastejando pelas ruas, dizendo, só me deem mais uma chance”, disse ela. “A peça representa isso. Ela é bela, mas isto não facilitou necessariamente as coisas.” TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

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