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Monstros

Pinóquio é um pequeno Frankenstein de madeira e Drácula colou para sempre na persona de Temer

Sergio Augusto, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2022 | 03h00

“Já não se fazem mais monstros como antigamente”, sentenciou a comentarista política Maureen Dowd, em sua coluna dominical no New York Times. Ela estivera relendo o romance Frankenstein e não conseguia tirar da cabeça a figura de Donald Trump, o “monstro americano”, antecipadamente identificado no título de sua coluna. 

Que lugar ocuparia Trump no ranking teratológico da América?, perguntava-se a jornalista enquanto acompanhava pela TV a enxurrada de evidências sobre a participação indireta, mas determinante, do ex-presidente no golpe de Estado embutido naquela choldra de 6 de janeiro, no Capitólio.

O lugar de um monstro do tope de Frankenstein, um Trumpstein, acreditava a jornalista. Mas a releitura do romance convenceu-a de que cometera um equívoco. Trump não merece ser equiparado ao “Prometeu Moderno” imaginado há dois séculos por Mary Shelley.

Bem antes de Trump cometer aquele evidente ato de traição à pátria, por sinal confirmado pelos depoimentos do ex-procurador-geral William Barr (cada presidente tem o Augusto Aras que merece) e da própria primeira filha, Ivanka, já o haviam comparado ao Rei Ubu (de Alfred Jarry) e outros sobas de origem literária. Eu mesmo tracei, nestas páginas, alguns paralelos entre ele e os monstros fascistas instalados na cúpula política da América por Brecht (Arturo Ui), Sinclair Lewis (Berzelius Windrip, de Não Vai Acontecer Aqui) e Nathanael West (Shagpoke Whipple, de Um Milhão de Dólares). Frankenstein, porém, jamais penetrou no meu radar comparativo. 

Pela primeira vez Maureen se deu conta da “mente elegante” da prometeica cria do dr. Victor Frankenstein. Ela lê Goethe (Os Sofrimentos do Jovem Werther) e possui sensibilidade, empatia e autoconsciência ausentes em estupores reais de nosso tempo como Trump. Sem nome próprio nem mãe, abandonado pelo “pai” e condenado à solidão e ao calvário dos seres fisicamente repelentes, sua agressividade nada tem de gratuita e sua malignidade não é fruto da psicopatia narcisística que contaminou vários figurões grotescos com os quais convivemos no noticiário. Frankenstein não é um monstro, mas uma vítima do monstruoso cientista que lhe deu vida.

Feitos esses reparos, Maureen centra suas observações na psicopatia de Trump e nos maus lençóis em que ele se meteu ao insuflar o frustrado putsch de cinco meses atrás. Como temos na presidência daqui um copycat mequetrefe de Trump, e também envolvido numa trama golpista igualmente prescrita por Steve Bannon, saí à cata de outro parâmetro literário para comparar com Bolsonaro, mas não encontrei nenhum à altura de sua repugnância. Pinóquio é um pequeno Frankenstein de madeira. E Drácula, como sabemos, colou para sempre na persona de Michel Temer.

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