"Monólogos da Vagina" exorciza tabu

A cada encenação da peça Os Monólogos da Vagina a americana Eve Ensler diz 128 vezes essa constrangedora palavra de seis letras que nomeia a parte mais íntima do corpo feminino. Tamanha insistência tem para ela um sentido terapêutico. "Me trouxe de volta à minha vagina depois de muito tempo longe", comemora a dramaturga e intérprete de 47 anos. Ao decidir montar um espetáculo com histórias sobre "as partes", Eve conversou com mais de 200 mulheres. E percebeu que, assim como ela, suas entrevistadas não conheciam o próprio corpo. "As mulheres não se olham, não se tocam, não falam sobre isso", diz. "Vagina. Não importa quantas vezes você diga essa palavra, ela nunca soará natural", escreveu Eve no prólogo da peça.Em busca de depoimentos emocionantes, pungentes ou extravagantes sobre uma palavra que jamais encontrou um sinônimo mais confortável, a autora viajou por vários países para entrevistar meninas, adolescentes, jovens e senhoras de diferentes raças e classes sociais. Reuniu as melhores histórias no livro e no espetáculo Os Monólogos da Vagina - que no Brasil chegou às livrarias no ano passado (Editora Bertrand, 124 págs.) e estréia em palco paulistano amanhã, numa adaptação de Miguel Falabella, no Tom Brasil.Entre as inconfidências ouvidas pela arqueóloga da feminilidade estão o relato comovente de uma jovem estuprada na Guerra da Bósnia que sente como se tivesse um animal morto costurado entre suas pernas. A história estranha de uma senhora de 72 anos que se fechou para o sexo depois de, na adolescência, ser xingada pelo namorado porque ameaçou o estofado do carro com suas calcinhas úmidas, num momento de excitação. Ou, ainda, as lembranças cheias de sustos de uma menina aterrorizada diante da primeira menstruação e proibida pela mãe de tocar no assunto. Mas a experiência da própria autora também serve de pano de fundo para o espetáculo - Eve foi violentada pelo pai até os 10 anos de idade. Em razão disso, relegou sua sexualidade a um lugar obscuro, de onde só a resgatou há seis anos, ao dar início à série de entrevistas vaginais.Leia mais

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