Monólogo sobre a banalidade do mal

DANUBIO TORRES FIERRO

DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO, DIRETOR DA EDITORA O FONDO DE CULTURA ECONÓMICA NO BRASIL, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2012 | 03h09

São várias, e todas concorrentes, as virtudes que fazem de Festa no Covil uma obra singular. Neste primeiro romance de Juan Pablo Villalobos - mexicano nascido em Guadalajara em 1973, que se especializou em marketing, acompanhou cursos de Teoria da Literatura na Universidade Autônoma de Barcelona e que, agora casado com uma brasileira e pai de dois filhos, mora nos arredores de São Paulo -, estas várias virtudes se escondem sob uma aparência enganosa. Com efeito, o romance se ergue, se constrói e se apresenta a partir de uma modéstia de propósitos que logo se revela falsa. Assim, à medida que adentra nas páginas do livro, o leitor descobre para seu próprio benefício que se encontra diante de uma obra na qual os fundos falsos, as correntes subterrâneas e os encadeamentos e ressonâncias que se instauram, se prolongam e se complementam mutuamente formam parte de um mecanismo de relojoaria literária que obedece a um claro programa de precisão e exatidão. Em determinada altura, este leitor se torna consciente de que aqui nada sobra e nada falta. Além disso, em certo momento, o leitor começa a agradecer a Juan Pablo Villalobos por ter proposto tanto uma estratégia literária própria, original, que começa em si mesma e se consome em si mesma, quanto uma releitura da realidade que lança sobre ela uma nova luz. Feitas estas afirmações, é conveniente avançar por partes:

A festa no covil é aquela que ocorre no palácio de um narcotraficante mexicano e tem como protagonista o filho dele, Tochtli, seu príncipe herdeiro, que vive rodeado por uma corte de 13 ou 14 pessoas e cujas fantasias (entre elas sobressai-se o desejo de brincar com exemplares de hipopótamos anões da Libéria, que por certo são tidos como símbolos de capricho pelo imaginário coletivo) são cumpridas imediatamente. A realidade do narcotráfico mexicano, esta realidade da qual o leitor está inteirado graças à grande abundância de informações que a mídia jornalística veicula diariamente, é recriada e revalorizada por um trânsito literário que pouco a pouco, passo a passo, com base firme e movimentos interiores significativos, vai propondo ao leitor um olhar incisivo, um ponto de vista corrosivo. Um olhar que converte o infantil humor involuntário que surge nas falas do menino Tochtli num sorridente humor aniquilador. De maneira espontânea, com um andar que faz da naturalidade sua pedra fundamental, o monólogo do menino Tochtli e a inocência que lhe dá corpo e substância acaba por mostrar ao leitor a banalidade do mal que se esconde no núcleo dramático do relato. Há mais. O leitor assiste a um antagonismo constante, e muito bem administrado enquanto recurso retórico, entre a vida do protagonista enclausurado no palácio do pai e uma realidade que só é conhecida por procuração, uma realidade virtual, vicária. O contraste entre este interior cheio de barreiras e equivocadamente adormecido e um exterior que grita e gesticula, bem como as pancadas alternadas que provêm de um e do outro, são uma fonte de inquietação na consciência do leitor, que circula entre o mundo inventado para (e por) Tochtli e o mundo que respira no exterior.

Da primeira até a última página, Festa no Covil é um monólogo recorrente, que avança por associações e concordâncias que se alimentam entre si e que também entre si se multiplicam, se comentam e até se aniquilam. Uma série de leitmotivs aparecem, desaparecem e voltam a aparecer, criando assim uma continuidade ideológica que nunca perde de vista uma reiteração de temas e assuntos que tem como objetivo surpreender o leitor no curso de seu trabalho e provocar nele uma reflexão que não lhe permita baixar a guarda. Assim, as cabeças cortadas, o sangue que corre, os cadáveres que se amontoam e os restos humanos pautam o relato à medida que este se expande e, por sua vez, o revalorizam a cada esquina dobrada, terminando por reiterar uma caixa de ressonâncias permanentes. Encontrar uma voz (a voz do protagonista Tochtli) é, aqui, encontrar uma voz (a voz do discurso) literária. Um clima, um tom e um ritmo são as consequências de tais achados. Há também outra consequência: as vozes que norteiam o livro (a do protagonista, a do discurso) seduzem com uma capacidade hipnótica e magnética que, em contrapartida, estimula um exercício que enaltece a participação ativa do leitor.

Que num primeiro romance, como é o caso de Festa no Covil, o discurso autônomo da literatura seja mais importante do que o discurso do sentido da literatura, como de fato ocorre neste livro, é uma característica que vale a pena destacar. Jovem, estreando na vocação de escritor, Juan Pablo Villalobos descobriu desde o começo que aquilo que interessa de fato é, para usar uma expressão clássica, the motion and not the mean (o movimento, e não o meio). O romance é, antes de tudo e sobretudo, uma obra literária que ganha o leitor em cada uma de suas páginas graças a uma vontade de proposta e de estilo que acaba finalmente a calhar, redonda e convincente. A propósito, é importante sublinhar que a tradução para o português - feita por Andreia Moroni, mulher do autor, e revisada por ele - progride com a mesma feliz fluidez cotidiana e o mesmo rigor astuto e sustentado encontrados no original em espanhol. De nenhum modo torna-se preciso situar num segundo plano aquilo que o autor tem a dizer. Amparado num senso de humor que descende de suas raízes mexicanas, e levando a todo momento o absurdo às últimas consequências, o autor nunca deixa de falar e se expressar. Mas sua fala e sua expressão não são as de quem se sente comprometido com as aspirações totalizadoras e os trejeitos abarcadores que tanto caracterizaram a literatura latino-americana no decorrer de sua história. Não há aqui um credo moral impositivo, nem uma busca por identidades imprecisas, nem um continente em risco de extinção. Em vez disso, o que há é um ato de amor, erguendo-se diante de uma catástrofe que se mostra provocadora por ser horrorosa: um ato de amor que tolera em suas entranhas a verdadeira crítica. "O México é às vezes um país magnífico e, às vezes, um país nefasto." Mas há ainda algo mais: a certeza, tão melancólica e tão repercutida nas páginas de Festa no Covil, de que a substância dos assuntos humanos é e sempre será tragicômica, tanto na sua dimensão magnífica quanto na nefasta. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

FESTA NO COVIL

Autor: Juan Pablo Villalobos

Tradução: Andreia Moroni

Editora: Companhia

das Letras

(96 págs., R$ 29,50)

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