Monólogo de Gero Camilo volta a SP

O retorno do ator ao centro do processo teatral, recuperando um terreno que perdeu para os diretores/autores dos anos 80 e 90, constitui um dos traços mais nítidos do palco neste início de século e milênio. Desde fins da década passada, os intérpretes ganharam de novo importância no campo do espetáculo, retomando para si um espaço antes ocupado por encenadores que, muitas vezes, davam ao elenco função equivalente à da cenografia, da iluminação, da música, fazendo dos atores não "o" elemento central, mas um dos fatores integrantes da encenação.A Procissão, em cartaz hoje e no dia 27 no projeto Segundas em Cena, do Sesc Pinheiros, é bom exemplo da força do intérprete na definição de uma montagem. Seu protagonista, Gero Camilo, é também autor e diretor do trabalho. Mas a obra, pautada pela simplicidade, pela ausência de rebuscamento, não foi concebida para jogar luz sobre essas funções. Tanto o dramaturgo quanto o encenador, aqui, estiveram exclusivamente a serviço do ator. Tudo foi concebido para abrir espaço ao trabalho do intérprete.O cearense Gero Camilo, que se formou pela Escola de Arte Dramática, foi premiado por seu trabalho no filme Bicho de Sete Cabeças, participou de Abril Despedaçado e fez um papel de destaque em Carandiru, não criou A Procissão para se exibir em um solo virtuosístico. Seu alvo é uma narrativa sobre a fé do povo, vista aqui como um fenômeno puro, não comandado por hierarquias eclesiásticas, mas impelido pela própria energia.Ao chegar ao teatro, o espectador, recebe uma fôrma de empadinha que contém uma vela. Quando se abrem as portas da sala, Camilo, acompanhado pela percussionista Tata Fernandes e pela cantora Ceumar, recebe a assistência como se fosse um grupo de romeiros fatigados pela jornada, que vai se acomodar no local para repousar. As velas são acesas umas nas outras, ao som de uma canção simples, entoada por Camilo, e o público tem acesso enfim ao local da representação. Um painel ao fundo e velas espalhadas pelo chão, às quais se unem as velas trazidas pelos espectadores, formam a cenografia.Nesse ambiente despojado, A Procissão envolve a platéia em clima mágico. Embora siga um tênue fio narrativo, não há trama que alinhave os vários momentos da peça. O romeiro anônimo, interpretado por Camilo, é um mestre-de-cerimônias que aproveita o descanso para falar da romaria, contar casos de penitentes e dar a deixa para as canções interpretadas por Tata e Ceumar. O texto é uma reunião de impressões, de imagens, que se articulam para formar na cabeça do espectador o espírito da romaria. Um pouco de seu sentido, de seu propósito com a manifestação coletiva, é assim desvelado. E a atuação de Gero Camilo é decisiva na transmissão dessas informações.O ator é um mestre em sua arte. Com material dramático tão despido de requinte, muitos talvez se perdessem, confundidos pela ausência de artifícios teatrais que A Procissão exibe. Não é o caso de Camilo.Serenamente, ele tece uma teia que aprisiona a atenção do espectador. Sem recorrer a grandes peripécias físicas ou vocais (embora tenha corpo e voz bem trabalhados), o artista vai transpondo para o aqui e agora do palco a realidade dura e fabulosa de um povo que tem nas manifestações religiosas a válvula que lhe permite expressar esperanças, desejos e temores.Camilo recria a procissão, a massa de penitentes, seu movimento, suas luzes, valendo-se só de seus dotes de ator. E não recorre a nenhuma grandiloqüência. Da contenção dos gestos e do calculado recurso vocal, resulta uma interpretação discreta, quase minimalista, que, por contraste, faz pensar em uma grande procissão, em uma festa religiosa que une milhares de pessoas. Quanto mais simples é o desenho do ator, mais amplia o universo que representa. O trabalho de Camilo é cativante. E breve. Com pouco mais de 50 minutos, A Procissão deixa na platéia a vontade de ver e ouvir mais.Quando o líder romeiro convoca o povo a retomar a caminhada, ou seja, a sair da sala, o público finge não entender de imediato. Ninguém se levanta. Todos sentem vontade de ficar ali, ouvindo mais histórias, mais músicas. O mesmo impacto que Romero de Andrade Lima causou com um bando de pastorinhas e 12 grandes esculturas em Auto da Paixão, Camilo, Tata Fernandes e Ceumar conseguem aqui sozinhos.Segundas em Cena. A Procissão. Texto, direção e interpretação: Gero Camilo. Duração: 50 minutos. Hoje (segunda) e no dia 27, às 21 horas.R$ 10,00. Sesc Pinheiros. Av. Rebouças, 2.876, tel. 3815-3999.

Agencia Estado,

20 de maio de 2002 | 11h13

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