Monicelli teve uma fase inspirada em Kubrick?

Questão ressurge a propósito de 'A Grande Guerra', tragicomédia clássica do diretor italiano

O Estado de S.Paulo

03 de março de 2014 | 02h08

Por volta de 1960, havia uma revolução em curso no cinema mundial. Na França, surgia a geração nouvelle vague, na Itália autores como Federico Fellini e Michelangelo Antonioni forçavam os limites do chamado 'realismo interior' e até em Hollywood cada vez mais grandes diretores desafiavam o Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência no cinema dos EUA. Um ano antes, dois filmes italianos dividiram o Leão de Ouro no Festival de Veneza. O austero drama De Crápula a Herói, de Roberto Rossellini, não poderia ser mais diverso da comédia A Grande Guerra, de Mario Monicelli. Será? Apesar das diferenças de gêneros, o retorno dos dois diretores ao tema da guerra comporta intrigantes paralelismos.

A Grande Guerra está saindo em DVD pela Cult Classics. O resgate é importante, mesmo que a qualidade da cópia não seja impecável (como o filme mereceria). De Crápula a Herói mostra como Vittorio De Sica, colocado numa prisão nazista para obter informações, termina vestindo a pele do general que deve substituir e morre com honra. A Grande Guerra passa-se durante a 1.ª Guerra, contando a história de dois soldados ineptos. Como Busacca e Jacovacci, Vittorio Gassman e Alberto Sordi fazem de tudo para evitar situações de perigo. Não querem ir para o front. São atrapalhados por natureza - invadem as linhas inimigas, pensando estar do seu lado da trincheira, e chegam a confundir prisioneiros italianos com alemães (e debocham dos compatriotas por isso).

Desde o começo de sua carreira, ainda nos anos 1940 - e em dupla com Steno -, Monicelli se revelou um autor cômico. Melhor seria dizer - tragicômico. Ri-se muito no seu cinema, mas há um substrato de drama e até de tragédia na maioria das histórias, senão em todas, que ele conta. Como Vittorio de Sica, o crápula de Rossellini, Gassman e Sordi são reconhecidos como covardes e desertores por seus pares, mas na hora H eles vão dar uma de heróis, recusando-se a fornecer a informação que o comandante alemão exige deles. Como estão à paisana, poderão ser mortos - fuzilados - sem honra. Não importa, as comédias de Monicelli mostram personagens 'pequenos' que raramente têm consciência da própria grandeza.

Dois anos depois de A Grande Guerra, Stanley Kubrick, em 1957, fez Glória Feita de Sangue, que também se passava durante a 1.ª Guerra e mostrava Kirk Douglas como advogado militar que tenta impedir o fuzilamento de soldados que o alto comando quer transformar em bodes expiatórios dos próprios erros estratégicos. A cúpula militar de A Grande Guerra não é menos inepta, e para Monicelli a fronteira entre coragem e covardias, entre heroísmo e traição é muito tênue. Pegando carona no fato de que voltou ao circuito O Iluminado, de Kubrick, pode-se lançar a pergunta - Monicelli terá tido a sua fase 'kubrickiana'?

Seu antigo parceiro, Steno - pseudônimo de Steffano Vanzina -, fez muitas paródias, o que não é bem o caso de Monicelli, mas seu último filme anterior a A Grande Guerra havia sido Os Eternos Desconhecidos, sobre um grupo de pequenos ladrões - ineptos - que planeja o roubo perfeito. Soliti Ignoti, de 1958, tinha o título alternativo de Rufufu, o que remetia ao clássico de Jules Dassin sobre assalto 'perfeito', Rififi, que é de 1954. Dois anos mais tarde, o jovem Kubrick fez O Grande Golpe, sobre o assalto a um hipódromo. Na versão de Monicelli, os perigosos 'meliantes' terminam a história toda numa conversa fiada sobre massas (pasta) e mulheres.

São todos anti-heróis, os assaltantes e os soldados, como também os seriam, mais tarde, os cruzados de O Incrível Exército de Brancaleone. Mais que o heroísmo, interessava a Monicelli a frágil humanidade de suas criaturas. O roubo, a trincheira, tudo muito kubrickiano, embora só por um curto período. Steven Spielberg, que amava Kubrick - e filmou A.I. Inteligência Artificial - terá visto A Grande Guerra? O diálogo atravessado dos soldados inimigos em A Grande Guerra antecipa uma cena emblemática de Cavalo de Guerra. A obra de Monicelli pede revisão. / L.C.M.

A GRANDE GUERRA

Itália/1959

Direção: Mario Monicelli, com Vittorio

Gassman e

Alberto Sordi.

DVD da Cult. Preto e branco,

120 min.

Preço: R$ 36

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.