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Monet em seleção didática e atraente

Escolha das 170 obras exibidas em Paris é resultado de pesquisa renovada

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Claude Monet é um dos ícones da cultura da França e da Europa desde o século 20. Suas obras estão expostas nos maiores museus do mundo e ocupam um lugar de destaque no templo do impressionismo, o Museu d"Orsay, em Paris. O jardim que tantas vezes o pintor reproduziu em suas telas foi reconstruído e seus recantos seguem floridos, plenos de cores e de turistas em Giverny, a 70 quilômetros da capital. Suas maiores obras, reproduções de nympheas, catedrais, paisagens rústicas, falésias da Normandia, são reconhecíveis com um golpe de olhar graças ao seu estilo inconfundível.

Difícil então, ao menos à primeira vista, entender a badalação internacional criada em torno de Monet, a megaexposição em cartaz desde quarta-feira no Grand Palais, em Paris. Quem for acometido dessa primeira impressão, entretanto, está sob ataque da precipitação. Mais do que "mais do mesmo", a mostra é a primeira homenagem monográfica exclusiva e à altura do talento do mestre impressionista em 30 anos. Sua concepção é fruto de um trabalho de pesquisa renovado, comandado pelos comissários Sylvie Patin, Sylvie Patry, Anne Roquebert e Tichard Thomson, que parte de uma ideia banal, a organização da mostra por temáticas e, dentro delas, pela cronologia, desde seus primeiros trabalhos, em 1860, até a série de Nymphéas do Museu de Orangerie.

A mostra se divide 170 obras em fases, uma primeira dedicada aos seus 30 primeiros anos de trabalho, no qual a marca são as paisagens de diferentes regiões da França. Lá estão La Falaise à Dieppe (1883), Sur la Falaise de Pourville (1882) e La Manneporte (1883), série que eterniza na história da arte as falésias da Normandia, na costa noroeste da França.

Nessa época, ensina a exposição, Monet sedimenta seu olhar dinâmico da paisagem, capaz de se adaptar, transformando-se de acordo com o jogo de luzes e de cada condição natural. A seguir, a exposição se concentra sobre a natureza-morta em Monet e, surpresa para muitos, a representação humana. Então é possível admirar com novos olhos Femmes au Jardin (1866), que revela a habilidade quase fotográfica do artista em capturar as variações de intensidade do brilho de acordo com a incidência da luz solar.

Em um segundo momento, o percurso explora a maturidade de Monet. Então com 50 anos, o pintor reduz suas peregrinações pela França e pela Europa em busca de paisagens populares e se refugia em um pequeno universo, seu jardim em Giverny. O que se vê é a conversão de uma fonte potencial de tédio em um objeto de estudo e aperfeiçoamento técnico quase inesgotável. Em seus jardins, Monet explora cada motivo de forma sistemática, acompanhando com olho clínico a evolução de seus temas de acordo com o ritmo da natureza, da luz à intensidade de cores e de vida de cada estação. Nesse momento, claro, é impossível não admirar Nymphéas (1904).

Eis um dos charmes da exposição do Grand Palais: clássicos de Monet, verdadeiros hits da pintura, se misturam a telas de diferentes épocas menos conhecidas do grande público, como o retrato de Camille (1859), La Gare Saint-Lazare (1877) ou Le Parlement, Effet de Soleil (1903) - variação do célebre Le Parlament de Londres au Soleil Couchant (1903).

Impressionismo. Além de render tributo ao mestre, o Grand Palais também inaugura um ciclo em Paris no qual o impressionismo parece voltar à moda. Do lado oposto da Avenida Winston Churchill, no Petit Palais, o pintor italiano Giuseppe De Nittis será em breve destaque de uma retrospectiva, 124 anos depois de sua última mostra na capital francesa. E, em janeiro, o Musée d"Orsay organizará um tributo a Jean-Léon Gérôme, contemporâneo do mestre.

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