Momentos de plenitude sobre o palco

Quarteto Borodin oferece leituras impecáveis de peças de compositores russos na Sala São Paulo

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2013 | 02h09

Em 1862, São Petersburgo assistiu à fundação de suas primeiras duas escolas de música: o Conservatório, onde mestres germânicos ensinavam o cânone da grande música europeia; e a Escola Livre de Música, movimento nacionalista, que passou à História como Grupo dos Cinco, liderado por Rimski-Korsakov, Balakirev, Mussorgsky, Borodin e Cui. Os gêneros que mais atacavam eram os "vienenses" quarteto de cordas e sinfonia.

O Quarteto Borodin, em deslumbrante concerto de anteontem na Sala São Paulo, contou a história deste transplante, do nascedouro com Borodin e Tchaikovsky até a maturidade com Shostakovich. Transplante bem-sucedido, mas de início difícil. Balakirev e Mussorgski achincalharam Borodin pela europeização. Na verdade, o segundo quarteto acrescenta pitadas russas à forma e ao estilo europeus. O violoncelo destaca-se na obra inteira, desde o primeiro tema do Allegro moderato; os Borodin arrancaram suspiros do público no scherzo, que evoca as Danças Polovitsianas, e no Noturno, cantilena já arranjada de mil e uma maneiras.

Curiosamente, Tchaikovsky, ex-aluno do Conservatório europeizado, soa mais russo do que Borodin em seus três quartetos. No segundo, que recebeu memorável leitura do lendário quarteto russo fundado em 1945, ele tenta acomodar-se à forma europeia, mas deixa-se seduzir pelo embalo de seu talento melódico. Desequilibra a forma, mas encanta os ouvidos. Shostakovich adorava esta liberdade, sobretudo no scherzo Allegro Giusto.

O clímax desta noite iluminada aconteceu no final da primeira parte, com a interpretação modelar do oitavo, o mais conhecido entre os 15 quartetos de Shostakovich. Pouco mais de 23 minutos de intensidade rara e música sanguínea, dolorosa e recoberta de inúmeras camadas de explicações ideológicas diversas. Os Borodin conseguiram sustentar o pianíssimo, carregado de uma tensão visceral, por longos períodos. Há obras-primas que resistem a execuções medíocres. O oitavo quarteto de Shostakovich necessita de músicos de exceção como os Borodin para atingir sua plenitude ali, ao vivo, diante dos nossos ouvidos emocionados.

PONTO ALTO DA NOITE FOI A VERSÃO OFERECIDA DE OBRA DE SHOSTAKOVICH

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