Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

MoMA reverencia o surrealismo pop de Tim Burton

Retrospectiva de sua carreira é a maior já produzida pelo museu de NY sobre a obra de um diretor de cinema

Tonica Chagas, especial para o Estado,

09 Fevereiro 2010 | 05h00

O Balzac esculpido por Rodin em 1898, que ocupava o lugar de maior destaque no lobby do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, cedeu o posto ao balão inflável de um menino de 6,5 metros de altura, cabeçorra azul e olhos arregalados. A cabra de bronze criada por Picasso em 1950 divide a parte mais ampla do jardim interno do museu com o topiário em forma de alce que enfeitava a entrada do castelo de Edward Mãos de Tesoura. Às vésperas de lançar Alice no País das Maravilhas, seu 15º longa, e presidir um dos mais prestigiados festivais internacionais de cinema, o de Cannes, Tim Burton, o menino malucão do surrealismo pop americano, compartilha o panteão de grandes nomes das artes visuais ao ser homenageado com a primeira exposição de seus trabalhos feita por um museu.

 

A retrospectiva da carreira dele que o MoMA exibe até 26 de abril é a maior já produzida pelo museu sobre a obra de um diretor de cinema. Além do lobby, dos corredores do andar térreo e do jardim, Tim Burton toma as galerias para exposições especiais no terceiro andar e as dos dois cinemas no subsolo do museu. Sem contar a exibição dos 14 primeiros filmes dele e uma seleção de filmes que o influenciaram, inspiraram e intrigaram como cineasta, vistos na mostra Tim Burton and the Lurid Beauty of Monsters, a retrospectiva apresenta em torno de 700 itens, entre desenhos, pinturas, polaroides e filmes amadores produzidos por ele nas três últimas décadas.

 

A visita à exposição está incluída no ingresso ao museu mas, como o interesse do público por ela é equivalente à expectativa por Alice, o acesso às galerias do terceiro andar é limitado por número de pessoas e é preciso marcar hora para vê-la. Pelas filas diárias para a compra do tíquete com hora marcada para ver Tim Burton, ela vai ficar entre as exposições de maior público este ano em NY.

 

Romeu e Julieta,  1981-1984, caneta, marcador e lápis de cor sobre papel (30.5 x 40.6 cm), de Tim Burton (desenho para um projeto não realizado, de adaptação da história escrita por Shakespeare, com uma massa de mar e uma de terra como o casal do título. Foto: Reprodução

 

A boca de um monstro de Trick or Treat, projeto de 1980 para um dos filmes dele que não foram realizados, forma a entrada das galerias que contêm o centro da exposição. Num corredor pintado com listras características dos desenhos dele, monitores de vídeo exibem a série de curtas com Stainboy, menino que trabalha como investigador para a polícia de Burbank, a cidade californiana onde Burton cresceu, localizada a menos de 20 quilômetros de Hollywood. The World of Stainboy foi criada em 2000 especialmente para a internet. No fim do corredor, numa saleta iluminada com luz negra, gira um carrossel com 13 criaturinhas divertidamente macabras, mestres de cerimônia do circo de ideias que Burton vem criando desde a adolescência.

 

As galerias foram organizadas em três seções, cada uma relacionada a Burbank e sua influência sobre Burton. A mais curiosa é a primeira, Surviving Burbank, com trabalhos dos tempos dele no ginásio e estudante da CalArts, escola fundada por Walt e Roy Disney. Exibidos em público pela primeira vez, eles refletem sensações de um adolescente que se socorria no consumo voraz de cultura pop e na própria imaginação para escapar da chatice de uma cidade pequena.

 

Ele colecionava tiras de quadrinhos de jornais e revistas, cartões de boas-festas, fazia listas de filmes do expressionismo alemão, filmes japoneses de monstros e outros de horror e ficção científica. E já filmava os próprios curtas em Super 8. A animação The Island of Dr. Agor e Houdini: The Untold Story, ambos de 1971, foram feitos nos quintais da vizinhança e o próprio Burton, então com 13 anos, faz o papel-título no segundo. Vencedor do concurso Beautify Burbank, um desenho dele estampou os caminhões de lixo da cidade em 1973. A contribuição daquele moleque compridão e tímido a uma campanha de prevenção de incêndios lhe valeu como prêmio passar um dia no Corpo de Bombeiros.

 

Em 1976, a Walt Disney Productions rejeitou um livro infantil que ele escreveu e ilustrou, The Giant Zlig, por considerá-lo muito derivado dos trabalhos do cartunista americano Theodor Seuss Geisel para ser vendável. Naquele mesmo ano, Burton ganhou bolsa para estudar na CalArts e sua educação como profissional o expôs à história e teoria da arte tradicional. Num de seus cadernos, ele anotou cuidadosamente lições básicas como realismo versus romantismo na obra de Courbet e Goya. Também escreveu ali uma apreciação sobre o pós-impressionismo: "Se eu olhar para algumas das pinturas de Van Gogh, elas não são reais mas captam tamanha energia que se tornam reais."

 

Em folhas de papel com desenhos de nus acadêmicos alternados com os de seres alienígenas, dá para ver para onde a cabeça dele voava durante as aulas. Em 1979, o filme mudo e em preto e branco Stalk of the Celery Monster, seu projeto de graduação, já demonstrava um gosto peculiar em casar o cotidiano com o gótico. Na história de quatro minutos, a câmara de tortura de um doutor maluco se revela como um consultório de dentista.

 

Depois de formado, Burton passou quatro anos no estúdio Disney como animador assistente e artista conceitual. Esse período de amadurecimento, lembrado na seção Beautifying Burbank, é marcado por uma enxurrada de criatividade e muitos projetos que ficaram só nos primeiros esboços. Ele produziu seu primeiro corpo importante de trabalho para a fantasia medieval O Caldeirão Mágico (1985), criando uma série de máquinas mortíferas, incubadores de monstros que usam bebês como munição e seres antropomórficos nada disneyanos. Nenhum dos quase 200 desenhos foram usados no filme.

 

Enquanto trabalhava para o estúdio, Burton também desenvolvia projetos pessoais, desenhando, pintando, fotografando e escrevendo cada vez mais. É dessa época seu primeiro curta, Vincent (1982), baseado num poema escrito por ele sobre um menino solitário que quer ser como Vincent Price, ator idolatrado pelo próprio Burton. A retrospectiva exibe o primeiro live action dirigido por ele, uma adaptação da história infantil de João e Maria feita com atores amadores japoneses que, até agora, só havia sido exibido nos EUA uma única vez.

 

Uma série com mais de 50 cartuns feitos a lápis sobre papel para animação mostra o dom de comediante e contador de histórias que ele tem e fica meio apagado nos filmes. Depois dos cartuns, em fins da década de 80 vieram mais de 300 estudos de mulheres, homens e casais feitos a caneta, em aquarela e pintados - às vezes em caderninhos de anotações, guardanapos e até em caixinha de anticoncepcional.

 

A carreira de Burton deslanchou com As Grandes Aventuras de Pee Wee (1985), seguido por Os Fantasmas se Divertem (1988), Batman (1989) e Edward Mãos de Tesoura (1990). Na última seção da retrospectiva, Beyond Burbank, além de centenas de desenhos e textos dele para preparação desses filmes (de Alice, há apenas um estudo para o personagem da Rainha Vermelha) e de outros que ele dirigiu ou produziu, estão peças de figurinos e objetos como o carrinho de bebê do Pinguim de Batman - O Retorno (1992), a blusa de angorá usada por Johnny Depp em Ed Wood (1994), cabeças decepadas de Marte Ataca (1996) e bonecos animatrônicos de A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005). Completam essa última parte desenhos e textos para projetos como o do livro ilustrado de poesias para crianças The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories, de 1997, e modelos pintados à mão da coleção de brinquedos Tim Burton’s Tragic Toys for Girls and Boys, que ele criou em 2003.

 

Honrado pela reverência à sua obra, no livreto que acompanha a retrospectiva lembra que, até a adolescência, o único museu onde pôs os pés foi o de cera, em Hollywood. Em Burbank, se não ocupasse seu tempo vendo TV, filmes de monstros ou desenhando, ia brincar no cemitério. Quando começou a frequentar museus de arte, achou que eles tinham um clima semelhante ao daquele playground. "Não de um jeito mórbido. Ambos têm atmosfera tranquila, introspectiva e, mesmo assim, eletrizante."

 

Depois do MoMA, entre junho e outubro a retrospectiva será exibida no Australian Center for the Moving Image, em Melbourne, seguindo de lá para o Canadá, com exibição entre novembro deste ano e abril de 2011 no Bell Lightbox, em Toronto. O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) anunciou que pretende mostrar a retrospectiva dos filmes dele ainda este ano ou no início de 2011 no Rio e, talvez, também em São Paulo.

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