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Humberto Werneck
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Moleque zero km

Tenho sob os olhos duas fotos do mesmo prédio, construção em concreto e vidro, comprida e achatada, capaz de sugerir um disco voador. Tão diferentes a duas – e, não só para mim, tão impressionantes. 

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 02h00

Na primeira imagem, colhida 60 anos atrás e postada agora por um amigo na minha página no Facebook, o disco está pousado numa paisagem belo-horizontina que há muito não existe mais, feita de casas, de uma igreja modesta, capaz então de atrair olhares e fiéis, e, ao fundo, a serra a cujos pés se construiu do zero a capital mineira, escarpa ondulada na qual a voracidade das mineradoras haverá de cravar seus dentes. 

Na outra foto, recentíssima, o foco está fechado no tal disco de concreto, que, embora sexagenário, bem passaria por adolescente, e cuja vista esteve por um tempo proibida pelos tapumes de uma obra de restauro. Devolvido agora aos olhares de quem passa, suas linhas talvez já não sugiram ousadia, mas conservam encanto de coisa nova, até mesmo para quem as conheceu cheirando à primeira tinta fresca. 

Disco voador? Há quem veja um mata-borrão, anacronismo outrora imprescindível em toda mesa de escritório, encarregado, com seu vaivém, de chupar o excesso de tinta que penas e canetas deixavam no papel. 

Isso, um mata-borrão – foi essa a ideia de Oscar Niemeyer ao desenhar, a pedido do governador Juscelino Kubitschek, um câmpus digno do Colégio Estadual de Minas Gerais, que era então, e fazia tempo, o melhor do Estado, e também o mais antigo, criado em Ouro Preto em 1854. Assim como o auditório se inspirou num mata-borrão, as demais peças do câmpus, num cocuruto do bairro de Lourdes, evocavam utensílios escolares: o comprido prédio principal, assentado sobre pilotis e provido, no ventre, de uma rampa de acesso, seria uma régua T – ou figuraria um estojo escolar? Uma coisa e outra, talvez quisesse o Niemeyer. A cantina, diziam, era uma borracha, e a caixa-d’água, sem equívoco possível, um giz apoiado na base menor.

Mas disso já falei em outra ocasião; o que desta vez me move são memórias que as duas fotos fizeram regurgitar, lembranças de estreias fundadoras na vida de minhas rotinas tão fatigantes. Sim, vá a confissão geriátrica, que evidências visuais aliás dispensariam: fui, aos 11, um dos inauguradores daquele câmpus, no distante ano de 1956. 

O exame de admissão, espécie de vestibular ao curso secundário, fora prestado, uns meses antes, no antigo e sobretudo velho prédio do Colégio Estadual – o mesmo de que o Fernando Sabino tinha sido aluno duas décadas antes, quando o nome era Ginásio Mineiro, e do qual alguns traços ficariam nas páginas de O Encontro Marcado, romance que, lançado em 1956, seria pouco menos que uma bíblia literária e existencial para os moleques escrevinhadores da minha geração. 

Tendo posto os pés, para fazer exame, no sambado piso de tábuas do prédio da avenida Augusto de Lima, foi com o assombro que desembarquei, três meses mais tarde, no câmpus do Niemeyer – que, àquela altura, início dos Anos JK, rascunhava uma Brasília no Planalto Central.

Alguma coisa ali, na verdade muita, estava ainda em fase de acabamento. Para desespero dos inspetores de disciplina, não havia grades nem muros, que administradores pé-no-chão providenciariam mais tarde; e, por se tratar de um legítimo Niemeyer, vegetação alguma, excetuado um veterano abacateiro, como que esquecido pelas retroescavadeiras, e, aqui e ali, moitas remanescentes de capim, oásis onde vinham saciar-se uns tantos burros sem dono. Nem preciso dizer onde é que professores menos finos catavam rótulo para pespegar nos maus alunos. (Um deles, contava-se, cansado de tentar estimular a tropa, teria perdido um dia a paciência com um recalcitrante: “Desiste, mula!”.) 

Entre as lembranças do primeiro dia, guardo bem poucas da primeira sala de aula, na qual, novidade, o quadro-negro era verde e fosco, e não de madeira, e sim pintado na parede. Impossível, tanto tempo depois, apagar da memória a carantonha esbranquiçada e salpicada de verrugas da dona Maria de Lourdes, a professora que mataria em mim qualquer possibilidade de namoro com a matemática, e que, para mal de meus pecados, haveria de encaixar-se entre os alunos, qual galinha choca, na foto da 1.ª série D. 

Mais forte, felizmente, ficou sendo a lembrança do que terá sido a molecagem inaugural no câmpus novo. Em clima algo solene, com reitor e professores nas imediações, a sirene chegou a ensaiar seu guincho, mas não deu conta de chamar para a primeira aula do primeiro dia, engasgada com a caixa de fósforos encaçapada por um aluno do 3.º científico – o manguarão Fernando Guerra, campeão de basquete, futuro médico com quem se casaria minha prima Dulce. 

Ao longo da turbulenta vida estudantil que fez de mim um dos alunos menos apreciáveis do Estadual de meu tempo, eu próprio haveria de acumular feitos & malfeitos pessoais – nenhum deles, a meus olhos, à altura daquela cesta de 3 pontos do Fernando Guerra.

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