Moleque setentão

O filho de imigrantes ugandeses que pode liderar os novos trovadores britânicos

Bento Araújo, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Michael Kiwanuka está assustado. É como se cada elogio que lhe começa a chegar fosse um saco de 50 quilos pendurado em suas costas. "Ser chamado de estrela em ascensão intimida. É preocupante corresponder a esse desejo. Por outro lado, é sempre legal contar com aqueles que acreditam naquilo que você faz," diz o jovem de 23 anos ao Estado, direto da Holanda, onde hoje se apresenta no festival Into The Great Wide Open, cujo objetivo é servir novos talentos à garotada.

Filho de imigrantes ugandeses, Kiwanuka custou a achar um lugar para morar em um bairro pobre ao norte de Londres. A música de Jimi Hendrix, Otis Redding e Bill Withers serviu como "um chute no traseiro" e fez o garoto pensar que também poderia fazer aquilo. Suas apresentações intimistas na periferia da metrópole atraíram o co-produtor de Devendra Banhart, Paul Butler (da banda indie The Bees), que o chamou para uma sessão de gravação sem compromisso em seu estúdio, na Ilha de Wight. O resultado foi Tell Me A Tale EP: Isle Of Wight Sessions, um EP de três músicas lançado pelo festejado selo Communion.

Fundado em 2006, bem no olho do furacão do revival folk, o Communion serve de estampa para um coletivo de novos talentos debaixo das asas de Ben Lovett, integrante do Mumford & Sons. Se Kiwanuka se considera parte deste revival e se é possível tirar proveito disso sem prejudicar sua música: "Definitivamente eu me sinto parte da proposta da Communion. Todos os artistas do selo escrevem suas próprias canções e são genuínos. Não tenho certeza se me enquadro dentro do revival folk como um todo, mesmo tendo muitos elementos de folk na minha sonoridade. Não creio que fazer parte disso prejudique a minha música, na verdade só ajuda."

A sacada do selo de Ben Lovett foi perceber que pessoas comuns podem também se tornar estrelas. Lovett, que tem a mesma idade de Kiwanuka, vive isso na pele, já que sua banda vendeu mais de dois milhões de álbuns, serviu de apoio a Bob Dylan no Grammy e lotou duas turnês pelos Estados Unidos - tudo isso em pouco mais de um ano. Segundo a MTV norte-americana, o Mumford & Sons e a cantora Adele vem liderando uma espécie de nova "invasão britânica", fenômeno que teve sua primeira leva em 1964 com os Beatles chegando à América.

Mas a nova fornada conta com caras comuns como Kiwanuka e outros nomes promissores (leia abaixo). Estaria ele tentando arrumar uma vaga no pelotão de frente da nova invasão? "Não sei se estou pronto para o pelotão de frente, mas seria muito bacana experimentar um pouco do que Adele e o Mumford & Sons vem desfrutando pela América."

Kiwanuka já saboreou um aperitivo ao abrir shows de Adele na Europa: "Aproveitei cada instante e aprendi muito. Essa excursão me mostrou o que pode acontecer quando você trabalha duro e deixa sua música fluir."

É natural que a música de Michael Kiwanuka cative cada vez mais ouvintes. Ao vivo ela é essencialmente acústica, uma simplória vibração de cordas, vocais e de um surrado violão. Em estúdio, a mesma essência recebe lustroso acabamento: orquestração, sopros, piano, coral e a bateria jazzy de James Gadson, que tocou com Bill Withers. Tell Me A Tale, carro chefe de seu EP homônimo, é prova disso e ganhou um clipe que anda carregando na janelinha de YouTube"s espalhados pelo mundo. "Eu e Paul Butler sacamos que Tell Me A Tale se beneficiaria de uma rica instrumentação. Adoramos músicas que têm caráter orquestrado, como The Makings Of You, de Curtis Mayfield, e outras que falam esse mesmo idioma. Adicionamos camada por camada."

O resultado foi surpreendente, retrô com certeza, mas sem ranço. Bill Withers, Terry Callier, Traffic e as mega-produções de David Axelrod ecoam dentro do trabalho intimista do novo astro. Worry Walks Beside Me, outra faixa do EP, como o nome já entrega, vem carregada de lamúrias e pessimismo. Seria seu toque blues soul ou mesmo um retrato da geração de Kiwanuka? "A fragilidade é definitivamente uma influência, mas a emoção humana é o que mais me inspira. A fragilidade é parte dessa emoção, assim como o amor e tantas outras coisas. Para expressar essas emoções através da música é necessário manter a guarda baixa, o que pode fazer você parecer ou se sentir vulnerável. Talvez isso gere o sentimento de fragilidade em qualquer tipo de soul music."

OUTROS NOMES DO SELO INGLÊS COMMUNION QUE VALEM A PENA CONHECER

Ben Howard

Fã de John Martyn, usa um violão percussivo e canta sobre a vida simples com canções pastorais

Elena Tonra

Conhecida como "Daughter", ainda não tem disco, só uma faixa e demos que estão em seu MySpace

Johnny Flynn

Habilidoso contador de histórias, amante de literatura clássica. Destaque do indie-folk.

Marcus Foster

Influenciado por Van Morrison e Tom Waits, é até agora o único da Communion a lançar CD

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