Modernos e moderados

Exposições confrontam os ícones da Semana de 22 com seguidores

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h21

Por coincidência, duas instituições programaram para este mês três exposições que trazem de volta alguns ícones da Semana de Arte Moderna de 22 e seus descendentes. Hoje, a Estação Pinacoteca inaugura a sequência da mostra Arte no Brasil: Uma História do Modernismo na Pinacoteca, complementando a mostra de longa duração e mesmo título, em cartaz no segundo andar da sede do museu, na praça da Luz. Na Estação Pinacoteca, no segundo andar, também será inaugurada uma grande exposição de gravuras que cobre desde os pioneiros da técnica no Brasil até os contemporâneos, passando pelos modernistas. Finalmente, a Caixa Cultural expõe aquarelas, desenhos e gravuras do pintor, escultor e cenógrafo Antonio Gomide (1895-1967), que conviveu na Paris dos anos 1920 com os modernistas brasileiros, em plena ebulição do movimento.

Juntas, as mostras compõem um painel histórico e uma narrativa cronológica da evolução do olhar moderno no Brasil, que não começou em 1922, mas bem antes, como comprova a primeira parte da exposição Arte no Brasil: Uma História do Modernismo na Pinacoteca, aberta há dois anos, que reúne 500 obras. Nessa exposição introdutória, o público tem acesso a telas de artistas como o acadêmico Almeida Júnior (1850-1899), que já no século 19 buscava não só reproduzir tipos brasileiros dentro de um linguagem naturalista como captar a luz tropical de uma maneira que nenhum dos pintores viajantes europeus conseguiu antes dele.

A exposição na Estação Pinacoteca agrega obras da Coleção Nemirosvky e do acervo da própria Pinacoteca. Dividida em duas salas, a primeira traz o que a curadora Regina Teixeira de Barros chama de Primeiro Modernismo (até os anos 1930 aproximadamente). Na segunda, é possível identificar traços dos pioneiros modernistas, embora com menor ênfase na renovação formal, como observa a curadora. "A rigor, a mostra poderia ser dividida em três momentos", diz ela, referindo-se aos pintores do fim do século 19 que buscavam os temas nacionais, como Almeida Júnior, a primeira geração de modernistas (Tarsila, Brecheret, Rego Monteiro), formalista, e os pintores atuantes nas décadas de 1930 e 1940, que retomam as tradições da pintura (Volpi, Bonadei) embora caminhem em direção ao concretismo.

O modernismo, defende a curadora, não se presta a uma leitura linear. "Não foi uma ruptura radical com o passado nem a primeira geração modernista significou o apogeu, pois as gerações seguintes não perderam essa potência, como prova a força da abstração geométrica entre nós, dos anos 1950 em diante". Curiosamente, ela já introduz o visitante na mostra exibindo duas faces de Tarsila. No lado esquerdo da sala expositiva está a moderna nacionalista de Antropofagia (1929), mistura híbrida de duas de suas telas mais conhecidas, Abaporu (1928) e A Negra (1923) - elas se juntam para formar o casal primevo do paraíso tropicalista. No lado direito prevalece a pintora formalista da fase pau-Brasil, que saiu de Itupeva para estudar com Léger, assimilando suas lições cubistas e voltando com a ideia fixa de misturar a torre Eiffel a sambistas na tela Carnaval em Madureira (1924).

Nosso modernismo, diz a curadora, numa foi radical. "Ele foi moderado, como prova a segunda sala, onde estão agrupados pintores que voltaram à paisagem", entre eles os integrantes de grupos como o Santa Helena (Volpi, Bonadei, Penacchi, Mario Zanini, Rebolo). Na primeira sala, além de Tarsila, Segall, Portinari e Ernesto de Fiori, destacam-se dois nomes que a curadora coloca em confronto, o espiritualizado Ismael Nery e o ateu Flávio de Carvalho, que bem poderiam sintetizar a conflituosa relação dos modernistas com o meio burguês de que eram oriundos.

Enquanto Nery exercitava sua vocação cosmopolita, rendendo-se ao monocromatismo e ao cubismo picassiano, como em Figuras em Azul (foto ao lado), de 1927, Flávio de Carvalho provocava os católicos com a tela Ascensão Definitiva de Cristo (1932), flertando com o surrealismo francês e a caipirice suburbana de bandeirolas de quermesse. É curioso como dois pintores de diferentes formações, como o lituano Lasar Segall e o paulista Portinari, lidam com a representação do negro na sociedade brasileira. "Segall, em 1928, pintou um ex-escravo (na tela Bananal) como se fosse uma escultura africana, em frente a plantas tropicais que formam uma espécie de parede alegórica, na qual o negro está encurralado, engolido pelo Brasil agrário". Portinari ancora-se na tradição realista e faz de uma mulher negra, na tela Família (1935), um sucedâneo da madona italiana renascentista com ecos de Picasso. A modernidade está ao lado, nos vizinhos de sala: Guignard, Ernesto De Fiori e Iberê Camargo.

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