Moderno Munch

Em Paris, mostra investiga a sua relação com virtudes e desvios da modernidade

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h09

Edvard Munch parece mesmo ter reconquistado seu protagonismo na velha Europa. Um ano e meio depois da exposição O Anti-Grito, agora é a vez de o Centro Pompidou revisitar a obra do gênio norueguês. Em L'Oeil Moderne - O Olho Moderno -, Munch é abordado sob a ótica da filosofia de seu tempo, e sustenta a tese da "plena modernidade" do artista. Mas sua relação com temas como o ego, a violência ou a reprodução técnica, vazia de protesto, levanta uma questão: não seria ele apenas um contemplador da modernidade?

O Olho Moderno é mais uma tentativa de desvendar o universo de Munch (1863-1944) celebrizado por O Grito (Skrik, 1893), marco do expressionismo e da história da arte. Como O Anti-Grito já havia demonstrado, os estudos sobre seu trabalho foram prejudicados por sua mais famosa tela, que lhe colaram à pele a identidade de um homem solitário, angustiado, oprimido. Hoje, a sua imagem começa a ser revista na Europa. E uma das abordagens mais bem-sucedidas é a escolhida pelo Centro Pompidou, que o aborda do ponto de vista filosófico.

São 140 obras, divididas em 12 salas e 9 temas, entre os quais a reprodução, a autobiografia, sua relação com o cinema e a fotografia e com o mundo exterior. Há ainda cerca de 60 pinturas, 50 fotografias, 30 desenhos, além de filmes e esculturas raras.

Na mostra, os comissários Angela Lampe e Clément Chéroux montam um panorama das técnicas modernas que influenciaram Munch. Fica evidente que ele se alimentava de todas as manifestações artísticas inauguradas pelas oportunidades técnicas da modernidade. Estão lá representadas a sua paixão pela fotografia e pelo cinema - e a forma errática e banal com que ele registrava o mundo ao seu redor -, sua contribuição ao teatro e seu interesse pela imprensa da época. Também fica claro quanto os novos temas e técnicas o faziam mergulhar no debate estético de sua época e contagiavam seu imaginário.

No que diz respeito à fotografia e ao cinema, por exemplo, os curadores chamam a atenção para o uso de efeitos de transparência, dinamismo e a narração que lhe eram particulares, caso da foto Autorretrato, 53 Cais Am Strom, Warnemünde (1907). Outra prova contundente é a tela Os Trabalhadores a Caminho de Casa (1913-14), que explora a noção de perspectiva, aporte trazido da fotografia e do cinema que se tornaria uma de suas marcas registradas. O próprio Munch, em 1930, confirmaria a influência: "Aprendi muito com a fotografia. Tirei inúmeras fotos de mim mesmo. Com frequência os resultados são surpreendentes".

Todas as constatações sobre as influências das mídias e temas da época fazem os comissários do Centro Pompidou concluírem que essas manifestações "inspiraram profundamente uma obra cuja exposição desvela a fulgurante modernidade". Para apoiar essa tese, os curadores evocam também sua relação com a repetição de telas como As Jovens na Ponte, ou Puberdade - pintadas em duas épocas distintas, em 1894-95 e em 1914-16 -, ou ainda A Criança Doente e Vampiro. A reprodução técnica era um grande assunto do debate cultural e filosófico de então, em parte graças ao texto maior de Walter Benjamin. Entre os argumentos está também o interesse no autorretrato, avaliado como "obsessão pelo registro de sua vida em imagens" e pela criminalidade das páginas dos jornais.

O Olho Moderno parte de um trocadilho sobre a obra realizada por Munch após o problema de visão que o deixou com sérias sequelas na metade final de sua vida. A mostra comprova que o pintor se alimentou da modernidade - uma constatação até certo ponto óbvia, já que Munch viveu até 1944 e três quartos de sua produção foram realizados no século 20. Reinterpretar suas influências é logo grande mérito, já que até aqui ele era identificado por sua relação com o naturalismo e os primeiros passos do expressionismo.

Mas a mostra deixa questões em aberto. Na modernidade do mestre não há protesto, causas políticas, radicalismos, ideologias; há desconforto, desilusão, talvez até derrisão. É como se Munch retratasse as angústias e o declínio da modernidade, e não seu esplendor. Nesse sentido, mais do que moderno, Munch parece pós-moderno até os ossos.

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