Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Modernismo em construção

Exposição em NY mostra a arte de uma América em busca de nova identidade

Lúcia Guimarães/NOVA YORK,

25 de agosto de 2013 | 09h15

A silhueta da casa em estilo vitoriano, além dos trilhos do trem, é uma imagem conhecida de um dos mais queridos artistas americanos, Edward Hopper. Mas muitos não sabem que a obra de 1925 foi a primeira adquirida para a coleção do nascente Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, fundado em 1929. A pintura de Hopper recebe o visitante na entrada de American Modern, Hopper to O’Keeffe (Moderno Americano, de Hopper a O’Keeffe), exposição recém inaugurada e que fica no MoMA até 26 de janeiro.

 

O modernismo desembarcou atrasado nos Estados Unidos, com o Armory Show, que comemorou seu centenário este ano. E a percepção predominante é que o MoMA, numa suposta reação compensatória, foi negligente com os artistas nativos e se concentrou nos europeus. Quem poderia condenar a escolha de privilegiar artistas como Picasso e Matisse, Kandinsky e Mondrian? Mas American Modern não é um esforço de reabilitação por comitê. A exposição, organizada pelas curadoras Kathy Curry e Esther Adler, com150 obras da coleção permanente do museu, é um exame da arte americana modernista da primeira metade do século 20. Foi no MoMA que Edward Hopper teve sua primeira retrospectiva, em 1933.

 

American Modern, sem mudar a avaliação crítica da produção americana daquele tempo, é uma oportunidade para acompanhar uma narrativa de transformação cultural do país, que carecia de tradição artística visual inovadora, mas se transformava num superpoder.

 

As curadoras destacam a obra de cinco artistas - Edward Hopper, Georgia O'Keeffe, Charles Burchfield, Charles Sheeler e Stuart Davis - e ancoram a exposição em temas que servem de exemplo ao choque de linguagens e representações do período. Há cenas urbanas e rurais, paisagens industriais, retratos e naturezas mortas.

Hopper, com suas cenas de solidão e melancolia, é talvez o mais conhecido exemplo da nostalgia por um mundo que desaparecia com rapidez. Paisagem Americana (1930), de Charles Sheeler, contrapõe ironia a idílio. Nada de campos verdejantes e sim o poder industrial da Ford, representada em uma fábrica do Estado de Michigan.

 

Entre os suspeitos habituais no coração do público, há várias as obras de Georgia O’Keefe, que dizia não ser suficiente se declarar americana. Era preciso amar o país. Uma pintura em pastel de O’Keeffe, Uma Orquídea (1941), está em exibição no museu pela primeira vez. Christina’s World (1948), a mais famosa pintura de Andrew Wyeth, morto em 2009, é uma obra que críticos desprezam como o pôster obrigatório de dormitório de estudante. A crítica pode ser subjetiva mas tem seu lado factual: a reprodução de Christina’s World é o pôster mais vendido das lojas do MoMA.

 

Traumas. Nesta arte das décadas entre duas guerras mundiais e marcada pela Grande Depressão, há fartos sinais de trauma e falsos começos. O Expressionismo Abstrato, o primeiro movimento artístico Made in USA, só tomaria força depois da Segunda Guerra. "Parte do motivo pelo qual Edward Hopper era tão celebrado no seu tempo", diz a curadora Kathy Curry, "é por seu realismo, que era considerado especialmente americano". "A critica da época resistia à abstração, que via como um esforço de imitar europeus."

 

É fascinante acompanhar a experimentação abstrata de artistas como John Marin, infelizmente pouco representado mas presente com Lower Manhattan (1922). A industrialização acelerada inspirava, alem da abstração, a geometria, na fotografia de Walker Evans ou na pintura New Moon (1945), de George Ault.

 

Preocupações sociais aparecem na série sobre as Migrações, de Jacob Lawrence, que documenta a fuga dos negros americanos para o Norte, em busca de trabalho. A intensidade urbana tem um belo exemplo nas gravuras de Charles Bellows representando lutas de boxe. Para um público que, à distância e pelo cinema, acompanhou imagens otimistas dos Estados Unidos até a década de 50, American Modern é uma boa oportunidade de acompanhar a narrativa nada homogênea do país que formava uma nova identidade.

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