"Modernidade" une Gerald Thomas a Rodrigo Pitta

O encenador Gerald Thomas é parceiro de Rodrigo Pitta na direção do espetáculo musical Modernidade, que terá como substrato a atuação do performer Lulo. O diretor não revela muito sobre a natureza da montagem, pois, como afirma em entrevista , há muito o que se discutir. "De objetivo mesmo, só existem as fotos que fui fazer com o Rodrigo num estúdio fotográfico do Rio", conta.Embora seja cedo para falar de Modernidade, Thomas aponta pontos favoráveis em dividir a direção com Pitta. "Gosto muito do Rodrigo. Vejo nele uma cabeça ótima, um humor absolutamente moderno e acho que o teatro precisa disso. Se me convidam pra fazer parte disso, que eu seja, se puder, uma ponte entre a experiência e um espírito em formação, sinto-me honrado", analisa. "Gostei demais do Lulo e acredito nesse projeto. Mas como conciliar as idéias do Rodrigo e as minhas, e como vai ser distribuído o trabalho dele e o meu num palco, vai ser um tratado que a ONU deveria supervisionar. Se os dois sobreviverem, vai ser lindo, pois seremos a prova viva de que nem sempre o teatro precisa ser feito por veneno." Workaholic por excelência, Thomas também falou sobre outros projetos, como a estréia de Esperando Beckett, com Marília Gabriela, no Sesc Anchieta, no dia 8 de março.O espetáculo "Modernidade" será o seu primeiro grande projeto em 2001?Gerald Thomas - Olha, eu sei tão pouco sobre o espetáculo, que só fui saber do nome através das suas perguntas. Aliás, acho o título pateticamente pretensioso."Modernidade" é o título de uma letra inédita do Cazuza, composta em 1983, que Lucinha Araújo deu a Pitta e Daniel Ribeiro - diretores de "Cazas de Cazuza" - para arranjarem. É fato incomum após a sua morte. Apenas parceiros antigos colocaram música em suas poesias.Ah... é do Cazuza. Bem, ele é genial, sempre será. O meu maior momento no show da Gal - justamente quando ela expunha seus seios - era durante Brasil, mostra a tua cara... O Lulo tem a ver com o universo que Cazuza deixou construído pra ele, ou seja, the next generation. O Lulo também soa, às vezes, como se estivesse incorporando a alma de Renato Russo. Esses dois Rimbauds da poesia brasileira serão objeto de homenagem no show, sem dúvida.E qual será o grande projeto para 2001?O meu primeiro grande projeto em 2001 é a estréia de Esperando Beckett, com Marília Gabriela, no Sesc Anchieta, dia 8 de março. A parceria com a Gabi foi a coisa mais importante da minha vida, uma luz que se acendeu, uma cumplicidade eterna que se criou. Ela é, provavelmente, a atriz mais genial com quem trabalhei. Uma vez estreado o Esperando Beckett, com muita calma, estarei preparando uma versão de Hamlet para Reynaldo Giannechini. A versão nada tem de Shakespeare exceto o invólucro conspirativo e que torna o príncipe despreparado para lidar com as verdades do mundo dos adultos. Nesse mesmo tempo, provavelmente, estará se dando a parceria com o Rodrigo Pitta. O show do Lulo vai ter de ser muito discutido. Parceria de diretor é uma coisa meio complicada. Gosto muito do Rodrigo. Gostei demais do Lulo e acredito nesse projeto. Não sei muito sobre ele ainda. Estou aqui em Nova York ouvindo o CD demo que recebi e tenho anotado algumas idéias. Como conciliar as idéias do Rodrigo e as minhas, e como vai ser distribuído - logisticamente - o trabalho dele e o meu num palco vai ser um tratado que a ONU deveria supervisionar. Se os dois sobreviverem, vai ser lindo, pois seremos a prova viva de que nem sempre o teatro precisa ser feito por veneno.Em 1997, você disse que estava perdendo a paciência com o teatro. E que, naquele período, a dança estava tendo mais significado para você, pois acreditava que o seu teatro "já era meio caminho andado para a dança". Em "Modernidade" você chega a passar por processo parecido, já que não é uma peça, mas um musical de um performer?Minha impaciência com o teatro é a impaciência de qualquer artista que luta contra a chatice da academia. O teatro no Brasil, sobretudo, se desenvolve muito pouco, assume poucos riscos, se aventura muito pouco na direção da provocação, que é o mínimo esperado de uma arte ao vivo. Nos centros acadêmicos, ainda discutem Stanislavski e fórmulas absolutamente incabíveis na equação proposta pelo mundo moderno. Os atores não sabem a diferença entre representação e interpretação. Sofrem de um ego inflado somado a pouquíssima informação. Resultado: uma histeria provinciana. Então, sim, estou de saco cheio desse mundinho que não tem nada a me dizer. Por que você acha que fui procurar na Gabi uma maneira de continuar fazendo teatro e, ao mesmo tempo, alimentando o próprio teatro com a inteligência e a vivência de uma pessoa brilhante, capaz de transpor para o palco toda a vivência riquíssima dela? Tive algumas experiências com a dança, que acho que não foram boas porque as parcerias não foram boas: Ismael Ivo, que foi um fracasso, e 1 Ato, que nem fracasso foi, pois não existiu. Não consegui driblar os problemas acadêmicos e de desinformação - os mesmos paralelos com o teatro - do mundo pobre daqueles que se esticam no palco, pulam e repetem clichês de teatro-dança ou dança-teatro, universo do qual nada sabem, mas tudo copiam. Nesse projeto com o Rodrigo e o Lulo, espero que a gente consiga dar uma rasteira nessa chatice toda e criar alguma coisa que seja universal e legível em outras partes do mundo. Acho que o espetáculo tem um potencial de ser a soma das artes, mas de uma forma light.Você e Rodrigo já têm um esboço de como será "Modernidade"?Combinamos ontem (dia 3/1) por telefone - ele de Salvador e eu de Nova York - criar uma "rede musical" sobre a qual o espetáculo transitará. Essa rede eu aprendi a fazer no show da Gal, Sorriso do Gato de Alice, que dirigi em 1995. Como te disse, muito pouco foi discutido até agora. De objetivo mesmo, só existem as fotos que fui fazer com o Rodrigo num estúdio fotográfico do Rio. É cedo para falar.Você aposta em novos talentos como Reynaldo Gianecchini. Quais são qualidades artísticas de Lulo que o estimulam a dirigi-lo?Adoro a entrada de pessoas nesse mundo teatral que demonstram paixão e ainda não foram contaminadas pela quantidade de besteiras acadêmicas e preconceituosas que rolam por aí. Paixão é o requisito número um nessa arte. Carisma e talento são desenvolvidos com o tempo, são moldados pela quantidade e qualidade de informações e vivências que o apaixonado trilha. Dirigir - e sobretudo conviver - com a Gabi foi e ainda é a coisa mais estimulante que me aconteceu, justamente porque as conversas iam desde fatos recentes até os históricos, sem preconceitos e com muita voracidade. Lulo, assim como o Gianni, é um apaixonado, um esfomeado pelo palco. O Gianni parece ter entrado no mundo artístico através de seu lado mais perigoso, o do astro da novela das oito, o lado efêmero, do sucesso insuportável, da mistura inorgânica do mundo fictício com o mundo real. O Lulo está nos bastidores treinando como o Rocky, pronto para colocar muita confusão - sobre ficção e verdade - na cabeça do seu futuro público.

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