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Moderação radical

Parece que perdemos a capacidade de ser moderados. As vozes que mais se fazem ouvir no debate são as que bradam palavras de ordem a partir de seus cantos extremos

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 03h00

Reparou como está difícil encontrar o tom para conversar sobre essa temida segunda onda da pandemia de covid-19? A gente não quer fingir que não está acontecendo, para não sermos negacionistas, mas não queremos fazer um terrorismo, para não sermos catastrofistas.

Parece que perdemos a capacidade de ser moderados. As vozes que mais se fazem ouvir no debate são as que bradam palavras de ordem a partir de seus cantos extremos, imbuídas de suas convicções inamovíveis. Sua certeza de estar certas só não é maior do que a certeza de que todas as outras estão erradas.

Acontece que seus brados são inócuos para influenciar a opinião dos opositores – a não ser para torná-las mais sedimentadas, talvez. E o que é pior, agora que precisamos conversar sobre a realidade que existe para além de suas construções mentais parece que ficaram todos sem voz de tanto gritar.

Por um lado, não é mais possível negar a gravidade da situação diante das milhares de mortes, do sofrimento disseminado. Por outro lado, tornou-se inviável defender novamente um lockdown – se na primeira tentativa, quando não sabíamos o que nos aguardava e ainda existiam reservas financeiras ele não deu certo no País, imagine agora, quando pessoas e reservas estão esgotadas. À medida que as vozes dos extremos perdem força, o silêncio que preenche seu lugar se torna ensurdecedor. As dúvidas, que desde o começo deveriam ter pautado a conversa, mas cujas perguntas eram abafadas pela gritaria da certeza, tornam-se presença incômoda, com a qual não sabemos lidar.

Não sabemos se esse aumento é uma segunda onda ou não. Ou quando a população geral será efetivamente vacinada. Nem mesmo quantas pessoas foram infectadas. Não sabemos se é seguro abrir escolas agora (e depois das férias?). Não sabemos se haverá um remédio específico para esse vírus. Há muito que não sabemos. É angustiante. Mas muito pior é ignorar as perguntas ou fingir que já estão definitivamente respondidas – isso sim nos faz caminhar a esmo.

O jeito é nos apegarmos ao muito que já sabemos. Sabemos que o vírus se espalha pelo ar. Sabemos que lugares fechados são um risco maior que locais abertos. Que lotações facilitam a transmissão. Que o distanciamento físico é eficaz na prevenção. Que as máscaras reduzem a transmissão e o contágio. Que a higiene respiratória faz diferença. Meses atrás não sabíamos de boa parte disso.

Devemos sim nos preocupar. Existe o risco de uma nova explosão de casos, e ele só se deve a nosso próprio comportamento. Afirmar isso não é defender outra quarentena. É chamar as pessoas à responsabilidade que todos temos para pôr em prática os cuidados como distanciamento, máscara, ventilação do ambiente. Na outra ponta, é preciso reforçar que contatos pessoais são seguros quando se obedece a tais medidas. Afirmar isso não é negar a doença. Ao contrário, é reconhecer que sua gravidade nos obriga a alterar nossa rotina, mas não precisa roubar nossa humanidade.

Esse é o tom que eu proponho para nossas conversas sobre a pandemia de agora em diante. Os radicais perderam sua chance. Chegou a vez dos moderados.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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