Modena, terra de Pavarotti, é conhecida por sua gastronomia

Mundialmente famosa como terra do tenor, Modena é a região do aceto balsâmico, lambrusco e zampone

Efe,

07 de setembro de 2007 | 17h11

Luciano Pavarotti, o tenor que certamente fez a melhor interpretação da ária Nessun Dorma (que ninguém durma), da ópera Turandot, de Giacomo Puccini, já dorme, já descansa, para sempre. A ópera, a música e a arte estão de luto. Por sorte, nos resta algo além que a lembrança de uma das melhores vozes do século 20. Fica uma abundante discografia, Turandot incluído. Podemos continuar escutando o grande Luciano, o humano Luciano, que suscitava, além de admiração, uma imediata simpatia em quem o via no palco, suando, tentando inutilmente se secar com seu fazzoletto. Pavarotti suava o seu fazzoletto, como ocorre a todos os que possuem uns quilos a mais. Quilos demais que são logicamente explicáveis, já que Pavarotti gostava de comer, inclusive de cozinhar. Nada mais lógico, se levarmos em conta que nasceu em Modena, na gastronômica região italiana da Emília-Romanha, onde não mais se alimenta de cinema, mas da autêntica ópera. Aceto balsâmico A esta altura, o produto mais conhecido de Modena é, sem dúvida, o vinagre balsâmico, o "aceto balsamico di Modena", que se espalhou pela culinária universal. O vinagre de Modena é uma jóia. Isto quando é autêntico e cumpre todas as condições necessárias para sê-lo, que não são poucas. Este produto é obtido do mosto cozido, fermentado naturalmente e submetido a um processo lento de acetificação (produção de azeite). Em teoria, bastariam cinco anos de produção, por meio de um sistema de soleiras similar ao dos vinhos de Jerez, para termos um "aceto balsamico". Entretanto, os verdadeiramente apreciados são os que esperaram pelo menos meio século para serem engarrafados. São, como se pode imaginar, caríssimos. Não são, claro, os vinagres usados pelos nossos cozinheiros, que se contentam com vinagres jovens. Ou com algo chamada de "condimento balsamico", que não é exatamente vinagre ou, melhor dito, não é só vinagre. Quem conhecer o vinagre de Modena saberá duas coisas: que é escuro e que tem mais gosto doce do que ácido. Caso se misture vinagre normal - bom, mas normal - com um pouco de vinho doce escuro, tipo PX, será obtido um "condimento balsâmico" fajuto que tapeará os paladares não iniciados. Ao contrário de Pavarotti, que como o seu rival Plácido Domingo cantou praticamente de tudo - para escândalo dos puristas - o vinagre de Modena não serve para tudo. Embora as pessoas pensem que sim. Já dissemos suas duas características básicas: é escuro - e muitas vezes o prato precisa de um vinagre branco - e é doce - o que pode ter sua utilidade em receitas de caça, por exemplo, mas não em uma salada normal. Zampone e lambrusco Os cidadãos de Modena não são conhecidos apenas por seu "aceto balsamico", mas também por seu "zampone", magnífico embutido que deve seu nome ao seu "recipiente", a pele das patas dianteiras do porco. O zampone com lentilhas é um prato típico das festas de Fim de Ano dos italianos. Outro produto famoso vindo proveniente de Modena é o lambrusco, um vinho leve e de pouca graduação que está obtendo reconhecimento fora da Itália. A verdade é que um lambrusco vem sendo uma espécie de "tinto de verão" que não precisa da adição de água com gás, pois já vem com ela. Entretanto, na última quinta, todas estas coisas passaram para um segundo plano, pois Luciano Pavarotti morreu. De alguma forma, morreu Calaf, o príncipe a conseguir resolver o triplo enigma de Turandot e assim conquistar a princesa chinesa. Voltem a escutar, com toda devoção, o Nessun Dorma, e lembrem sempre deste imenso tenor que acaba de nos deixar.

Tudo o que sabemos sobre:
Modenagastronomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.