REUTERS/Paulo Whitaker
REUTERS/Paulo Whitaker

Moda reage à realidade com poesia e inovação na São Paulo Fashion Week

No terceiro dia do evento, design, desejo e emoção marcam presença

Maria Rita Alonso e Sergio Amaral, Especial para O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2018 | 23h07

Com um banquete de pratos típicos árabes e judaicos sobre uma enorme mesa em plena passarela, Ronaldo Fraga fez a mais emocionante apresentação deste terceiro dia de São Paulo Fashion Week. Começou com dois homens caminhando em lados opostos da mesa. Um deles estava envolto num lenço palestino com um Hamsá bordado. O outro vestia uma blusa com uma estrela de Davi. Ao final do trajeto, em frente aos fotógrafos, eles se encontraram, deram as mãos... e se beijaram.

Numa época em que muito se fala de ódio, Ronaldo colocou o amor literalmente em cena. Quer imagem melhor do que judeus e palestinos desfilando e depois sentando juntos à mesa para a semana que antecede uma das mais polarizadas eleições que o Brasil já viu? “A coleção fala de tolerância como um valor mínimo para o ser humano a essa altura do campeonato”, diz o estilista, que desta vez apostou no jeans, o tecido mais democrático da moda, trazendo bordados de peixes, laranjeiras e efeitos de tapeçaria como elementos decorativos.

Enquanto Ronaldo Fraga conseguiu unir forma e conteúdo, Reinaldo Lourenço, outro veterano do evento, juntou design e desejo. Depois de uma coleção inspirada em Kubrick, decidiu pegar carona no imaginário de A Garota da Motocicleta, estrelado por Marianne Faithfull e Alain Delon.

Um perfume fetichista permeou todo o desfile, que teve o couro como principal elemento. Recriações luxuosas de jaquetas e calças de motociclistas executadas primorosamente abriram a apresentação com geometrias a partir de recortes do material. Na sequência, o couro surgiu em detalhes marcando a cintura de vestidos superfemininos. 

O trabalho que Reinaldo oferece é autoral. Não está disponível nas redes de fast fashion daqui ou do mundo. Por isso, não é à toa o sucesso que faz com suas clientes, sempre na primeira fila, todas vestidas com roupas da coleção mais recente. Quantos estilistas no Brasil podem se dar esse luxo?

Patricia Bonaldi é outra dos poucos que pode. Um fenômeno comercial, ela não quer reinventar o guarda-roupa. Mas quer ser sucesso de vendas também fora do País. E desejo não falta. Em seu desfile do verão 2019, celebra um Brasil exportação com muitos florais, babados, fendas, transparências e bordados artesanais. É um “Brasil que eu quero” para gringo ver – e consumir. Também de olho nas referências tropicais, Amir Slama se sofistica e aumenta a presença de roupas em meio a sua moda praia.

A marca Aluf, de Ana Luisa Fernandes, e o estilista Lucas Leão abriram o Estufa, projeto dedicado a jovens criadores. Como esperado, ambos mostraram coleções de vocação experimental e design disruptivo. Afinal, inovar é preciso. 

E o que se espera de um desfile? Mil coisas, mas basicamente três: design, desejo e emoção. Felizmente, foi o que não faltou neste terceiro dia desfiles. Infelizmente, nem sempre juntos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.