Moda lúdica de Ronaldo Fraga na Augusta

O estilo dele se esparrama pelo espaço. Transcende as roupas. Está nas paredes coloridas, nos móveis de antiquário, nos lustres de ferro, nos espelhos de antigamente e no bom humor do falso gato - capaz de enganar até o olhar mais atento. Como tudo o que vem com a assinatura de Ronaldo Fraga, o bichano comprado em um brechó de Londres é lúdico, divertido, criativo, especial - e combina perfeitamente com o espírito que o estilista quer impregnar seu showroom paulistano. O Espaço Ronaldo Fraga já estava funcionando havia um mês para vendas no atacado, e iniciou esta semana a comercialização das peças no varejo. Mas o primeiro ponto-de-venda próprio em São Paulo não é uma lojinha qualquer. Fica no segundo andar de um prédio na Rua Augusta (onde também funcionam o showroom de Marcelo Sommer e o ateliê de Guilherme da Matta). "Gosto disso, de ter de tocar a campainha e subir no elevador para chegar à loja. Dessa forma a gente atinge um consumidor que tem cultura de moda", acredita o estilista. Com ele no projeto está Petê Marchetti, que foi modelo nos anos 80 e desfilou para Fraga em sua primeira participação no Phytoervas Fashion. Desde então, ficaram amigos e Petê o procurou com o desejo de montar uma loja Ronaldo Fraga em São Paulo. Tudo veio a calhar: a locação, a parceira, o momento propício do estilista. E o negócio engrenou. Quem for ao espaço será recepcionado por uma sala-galeria, na qual caixas de luz exibem algumas imagens do último desfile de Fraga - O Corpo Cru. "As cenas serão renovadas a cada temporada", revela. Alguns detalhes da loja-showroom ainda estão sendo providenciados, como a parede de ´gaiolas´, dentro das quais serão exibidos os acessórios da grife, e as cortinas - que irão separar as áreas de atacado e de varejo. Desfile não vende roupa A interferência de Fraga na arquitetura revela o artista múltiplo que é. A área de serviço virou escritório e ganhou vidros coloridos nas janelas. O banheiro tem paredes vermelhas e toalhas bordadas de carneirinhos. O provador exibe espelhos antigos e cabideiro de época. "Tudo o que foi para a passarela como objeto cênico acaba sendo usado na decoração da loja", avisa. E lá estão os manequins de madeira que apresentaram seu outono-inverno no lugar das modelos de carne e osso. "Não faço desfile para vender roupa. Lá a gente vende a vontade de renovar, o desejo de transgredir, uma identidade. Acho que quem vem à minha loja procura o clima da passarela", diz. A moda de Fraga pode até ser encontrada em outros pontos-de-venda na cidade, mas no showroom está a alma do estilista traduzida em tecidos e idéias para vestir pessoas. Criador de figurinos e participante de exposições, Fraga diz que moda não é arte, "só que às vezes tem a linguagem da arte". No seu caso, fazer desfile ou figurino dá na mesma. "Da forma como eu trabalho a moda não há muita diferença, minhas apresentações são sempre temáticas, permeadas de pesquisas de situações, de materiais", explica. Atualmente, Fraga está em cartaz com Passatempo, de Renata Melo. Figurinista e artista plástico O tema principal do espetáculo é a passagem do tempo - do engatinhar ao declínio da velhice. Para o figurino, ele "quis desnudar as pessoas de qualquer referência cronológica". Procurou por meio das roupas neutralizar qualquer subterfúgio que remetesse àquela ou outra idade. Os atores ora se passam por bonecos de filmes infantis ora por fantasmas de filmes de terror. Fraga também participou da Extra Bienal, mostra com 50 jovens artistas realizada com curadoria de Isabela Prata, para a qual fez camisetas estampadas. "Participar desses projetos é um momento de respiro e obviamente acaba refletindo na coleção", admite Fraga. Considerado o mais engajado dos estilistas brasileiros, ele acha no mínimo engraçado ser apontado como o criador "cabeça" de sua geração. "O ato de vestir é político, seja para se inserir em um grupo, para conquistar. O que me agrada é estar fazendo moda neste momento no Brasil." E vai mais longe: acha que daqui a 20, 30 anos, a moda será estudada como ciência. "O poder de mobilização dela é único." Por mais temáticas e conceituais que sejam as criações de Fraga, sua intenção de fazer "coisas para vestir" se realiza. Há itens que exigem, sim, personalidade. É preciso estilo, por exemplo, para segurar as estampas de vísceras ou de seios amontoados. Mas são absolutamente inofensivos os vestidinhos de algodão, as saias jeans, as camisas com bordados inesperados - como uma trança caindo sobre as costas. "Meu maior prazer é quando encontro gente usando minhas roupas", revela. As roupas de Fraga também são "compráveis". Diante dos muitos valores exorbitantes que alguns estilistas cobram por seus modelitos, os dele parecem pechinchas. A camisa com aplique de trança, por exemplo, custa R$ 126. A saia com estampa de formigas vale R$ 149. Um vestido de algodão com pespontos sai por R$ 306. O com imagem de peitos custa R$ 304. As Congas do estilista vêm com ilhoses (R$ 69), tradicional (R$ 66) e boneca (R$ 69). Ronaldo Fraga está também de cara nova. A barbicha que cultivou durante dez anos sucumbiu aos poucos meses de vida de Ludovico, o pequeno herdeiro. Fraga papai exibe novo visual, mas ainda se pega afagando o queixo, buscando um cavanhaque que não existe mais. Serviço Espaço Ronaldo Fraga, R. Augusta, 2.445, 2.º andar, cj. 03, tel. 3088-8050

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