Moda é Issa!

Moda é Issa!

Visitamos em Londres o ateliê da brasileira Daniella Helayel, à frente da grife que veste a futura princesa

Flavia Guerra / LONDRES, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Se fosse possível filmar a estilista Daniella Helayel em um dia típico de trabalho em seu ateliê em Chelsea, distrito fashion do sudoeste londrino, a sequência inicial seria assim: na antessala de uma espécie de galpão adaptado, no terceiro andar de um típico prédio "conversion warehouse" local, os cães Snowball e Monster aguardam, pacientemente, a dona trabalhar com sua pequena, mas integrada, equipe. Em volta de uma mesa redonda, onde se espalham tecidos, materiais em geral, telefones celulares, computadores e afins, Daniella e seus assistentes discutem os detalhes de um look quase pronto. "Sou louca por vestidos. São femininos, fofos. Esta nova coleção está ótima porque tem muitos", diz ela, sobre um modelo de tricô de lã que "descansa" no chão enquanto espera para receber os últimos ajustes.

Ao fundo da sala, há uma arara com criações de coleções passadas, já desfiladas em edições da London Fashion Week. Um grande espelho ajuda a modelo de provas a ajustar um novo modelo: um vestidinho preto, de lã tricô. No reflexo do espelho, vê-se um pedaço da sala ampla principal, outra parte do galpão, onde várias mesas dividem o espaço com algumas caixas com amostras de materiais, estantes, rolos de tecidos, armários-arquivos. No alto da parede, a placa: Issa London.

É desse mix de laboratório de criação, showroom e QG que saiu o vestido mais comentado dos últimos anos: o godê drapeado azul que Kate Middleton usou no anúncio de seu noivado com o príncipe William, em novembro.

Talvez Kate nunca imaginasse que uma escolha, que pode ter sido feita assim de impulso, como quem escolhe um vestido para uma festinha, teria tamanho impacto na vida da estilista. É fato que a Issa já tem carreira sólida. Daniella desfila suas criações na London Fashion Week há cinco anos. Seus vestidos coloridos e ultrafemininos já vestiram mulheres diversas, como Kate Moss, Madonna, Sharon Stone e Naomi Campbell. Mas é inegável que a escolha de Kate causou uma onda que ela jamais pensou que fosse invadir sua praia.

Literalmente do dia para a noite, a niteroiense radicada em Londres viu sua marca Issa (nome inspirado na saudação surfista) ser alçada à categoria de "must have" mundial. A estilista foi destaque nos jornais e revistas de todo o mundo, viu os clientes japoneses pedirem 800 vestidos "iguais ao da Kate" e tem visto o mesmo entrar para a lista das réplicas mais vendidas nas lojas de varejo da rede Tesco e Peacocks. Entre outras notícias, Daniella foi apontada por jornais como o New York Times como a mais provável a assinar o vestido de noiva de Kate. Ela não afirma nem desmente, e as especulações continuam.

No entanto, a julgar pela tarde de trabalho que o Estado acompanhou com exclusividade em dezembro, quando a equipe Issa fechava detalhes da pré-coleção outono-inverno e se preparava para merecidas férias natalinas, o turbilhão de publicidade gratuita não mudou muito a rotina da estilosa e simpática "usina de criação".

Entre uma parada e outra para discutir um ajuste ali, um comprimento aqui, checar um e-mail, agendar um táxi para mr. Leslie (o pilotista mais atípico dos últimos tempos da moda), levar Monster ao toalete, a estilista conversou com o Estado sobre a nova fase, o Brasil, mercado, moda. Só há um assunto sobre o qual não fala: o vestido de casamento. "Não adianta perguntar. Não falo sobre a vida particular das clientes."

Você sabia que Kate usaria um vestido Issa no anúncio do noivado com o príncipe William?

Não sabia de nada. Descobri quando vi na mídia. Kate até vem aqui às vezes, mas compra na loja. Aquele vestido ela comprou na loja. Foi, claro, incrível. Imagina receber a People e ver meu trabalho tão reconhecido assim, com Karl Lagerfeld (o "homem" Chanel) declarando: "Ela está chique do jeito que a posição dela exige." E ver que ela está usando um vestido meu. Fora saber que 50 milhões de pessoas apenas nos EUA estão lendo isso. É a melhor publicidade que eu poderia ter na vida.

E nem assim a rotina mudou?

Bem, as entrevistas aumentaram. Você, por exemplo, não está aqui por acaso. Mas, em questão de negócios e vendas, não deu para sentir ainda esta mudança toda. Isso porque, desde o episódio, ainda não estou vendendo. Só começamos o novo período de venda no fim de janeiro, início de fevereiro.

Mas a coleção nova você só desfila no fim de fevereiro, na London Fashion Week.

Sim. Esta venda de janeiro é a da pré-coleção outono/inverno, que estamos fechando agora. Só então vai ser possível medir isso. Já há várias reuniões agendadas, nos EUA, por exemplo, com compradores que, com a crise, haviam parado de comprar e que estão voltando.

E no Brasil, aumentou a procura?

Por ora, não. Mas houve um fato curioso. Uma cliente minha no Brasil, que compra a Baby Issa (linha infantil), leu em uma revista que sou uma das "cem pessoas mais influentes do País". E me disse: "Nossa, depois disso, vou aumentar os meus pedidos."

É curioso porque, sua moda, ainda que baseada em Londres, é tão brasileira em vários pontos. As curvas, a valorização do corpo feminino, estampas, vestido...

Sim... Mas só vendo em quatro lojas no Brasil: na NK Store, na Alberta, na Zezé Duarte e na Ana Paula, em Brasília. Mas, depois desta exposição toda que tive na mídia, decidi que agora vou vender muito no País. E vou fazer um showroom em São Paulo no dia 25, no Salão Casa Moda, no Hotel Unique. E quero abrir uma loja. Adoraria que fosse no Iguatemi, mais clássico. Ou no Cidade Jardim, que adorei também. Se tivesse duas lojas, uma seria lá. Antes nunca tinha me preocupado com o mercado brasileiro.

Mas é um grande mercado.

Sim, mas é relativo. A alfândega brasileira é irritante. Quero produzir no Brasil e vender no País.

Mantendo o padrão internacional?

Claro. Tudo igual, até a modelagem. Mulher é tudo igual. Claro que, se for desenhar calça, a modelagem vai ser diferente. Mas gosto é de fazer vestido. É muito difícil fazer tudo bem. Até uso materiais diferentes, como o tricô, que chega nesta nova coleção, casaquinhos, mas quero fazer o melhor vestido sempre.

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