Divulgação
Divulgação

Moda à siciliana

Na primeira visita a São Paulo, dupla de estilistas italianos Dolce e Gabbana comemora também aniversário da primeira loja no País

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2013 | 02h15

Há pouco mais de cinco anos, quando, em busca dos chamados novos mercados emergentes, a grife italiana Dolce&Gabbana desembarcou na China, levou na mala a vontade de 'encarnar o modernismo' e entrar em nova era da moda contemporânea. "Tínhamos deixado de lado nosso DNA, as rendas sicilianas, o branco e o preto... Chegamos ali com esse espírito e sabe o que ouvimos dos chineses? Que eles queriam renda, sensualidade, feminilidade e tudo mais que sempre fez nossa história. Queriam o que, no fundo, definia nossa história e nossa identidade. Isso abriu nossos olhos", comentou o estilista Stefano Gabbana em conversa com o Estado ontem, em uma suíte do hotel Fasano. "Entendemos quanto é importante manter nosso caráter. Para ter força não só conceitual, mas também sobreviver", comentou o estilista italiano em sua primeira passagem por São Paulo.

Ao lado do siciliano Domenico Dolce, o milanês Gabbana criou uma das marcas mais poderosas e icônicas da moda mundial. As siglas D&B são reconhecidas mundialmente e possuem o raro poder de se tornar objeto de desejo de mulheres e homens desde a apregoada classe C, os emergentes e até os mais tradicionalistas. Em tempos do império dos grandes conglomerados de moda, que substituem muitas vezes os estilistas fundadores por diretores criativos, a Dolce&Gabbana é uma das raras a se manter própria e a conservar seus fundadores no comando.

"Talvez o segredo seja o fato de que levamos muito a sério a moda italiana. Dizem que somos inovadores. Mas somos muito ligados a valores tradicionais da moda italiana, como a importância do corte, o trabalho manual, o bom tecido. Apenas os reinterpretamos e criamos looks que trazem isso de uma nova perspectiva", comentou Dolce.

Sobre a visita ao Brasil, os planos de abrir uma loja de rua nos Jardins, e sobre sua identidade, a dupla falou ao Estado.

Essa não é a primeira vez no Brasil, pois vocês já estiveram de férias, mas é a primeira em São Paulo. Por que a visita?

Dolce&Gabbana: Porque, além de comemorar o primeiro ano da nossa primeira loja no País (No Shopping JK Iguatemi), queremos estar mais próximos. Temos só dois dias, mas queremos voltar logo. E queremos entender melhor o brasileiro e o que acontece aqui. Estamos geograficamente distantes, mas temos muito em comum com o latino-americano.

E o que há em comum?

Dolce: A afetuosidade. Há a linguagem do corpo. O brasileiro é sensual, sexy. Até quando está vestida como um homem, ela sabe que embaixo do terno há um sutiã de renda. A moda é uma ironia fina. E a brasileira entende muito bem este jogo.

Você são mestres no prêt-à-porter. E acabaram de fazer pela primeira vez um desfile de alta-costura. Quando criam hoje um vestido, pensam na consumidora? No que uma chinesa, uma brasileira, italiana quer?

Gabbana: Não pensamos nem em uma 'mulher global' e nem no comprador. Pensamos na estética Dolce&Gabbana. Sobretudo nestes últimos cinco anos estamos trabalhando muito no que fazíamos inconscientemente, e instintivamente, quando nascemos. Fomos buscar inspiração na Sicília, na figura da mulher mediterrânea como Anna Magnani, Sophia Loren, que ganhou reforço com Madonna e Monica Bellucci, Scarlett Johansson. Ainda que algumas sejam estrangeiras, têm a sensualidade mediterrânea.

É um ideal que vai contra os cânones das modelos esquálidas. Muito 'mulher de verdade'.

Dolce: Exato. São femininas. Gostamos de 'mulheres que são mulheres' e 'homens que são homens'. É até um pouco arcaico.

Gabbana: E é por isso que tanto nas coleções e nas nossas campanhas estamos trabalhando esta figura feminina, que é a que nós amamos. E é amada pelas mulheres, principalmente as brasileiras.

Tal estratégia vai contra a massificação e o fast fashion.

Dolce: Sim, ainda que nossa moda seja usada por mulheres e homens de todo o mundo. Digo sempre que somos sortudos. Temos a chance de, por meio do nosso trabalho, exprimir o que somos e sentimos.

Gabbana: Há coisas boas no mundo global, mas o lado negativo é que a globalização e o mercado de massa mataram a criatividade e a individualidade. E o fast fashion, de certa forma, foi a ruína da moda. Não só economicamente, mas também em questão de pensamento.

Dolce: Os valores característicos dos países estão se perdendo. Isso não deve ocorrer. O Brasil é lindo porque é o Brasil. Nós, italianos, ainda que sejamos parte da União Europeia, somo diferentes dos alemães e dos espanhóis. A união europeia não existe. É só uma questão de moeda. Nossa moda é diferente da inglesa. É muito mais tradicional.

Como lutar contra a pasteurização fashion?

Dolce: O fast fashion tem o lado interessante de dar às pessoas a oportunidade de se vestir, mas, ao mesmo tempo, destrói as pequenas empresas. E nós perdemos mão de obra. Acho interessante que, também na moda, a política brasileira tenha medidas que, apesar do mercado global, façam com que se deva consumir produtos nacionais. É certo. Porque se alimenta a indústria interna, cria-se trabalho. Há um tempo em que um país deve viver de seus próprios recursos. E quando este país se torna grande, pode se abrir. É interessante o que o Brasil está fazendo economicamente, porque, mesmo recebendo tanta influência internacional, defende o que tem. Quando vocês forem mais fortes daqui a alguns anos, conseguirão se abrir mais.

Tudo o que sabemos sobre:
Dolce&gabbanamodaentrevista

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.