Mocarzel dá voz a meninos da periferia

Cinema de Guerrilha foi exibido antes da ficção O Homem Mau Dorme Bem

Luiz Carlos Merten / RECIFE, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Evaldo Mocarzel está de volta ao Recife, onde seu documentário Do Luto à Luta ganhou o Calunga, anos atrás. No intervalo, o cineasta, ex-editor do Caderno 2, desenvolveu-se em mais projetos do que o tamanho deste texto poderia resumir. Agora mesmo, Mocarzel trabalha na montagem de seis filmes e busca financiamento para outros três. E quer fazer também ficção.

O novo longa de Evaldo Mocarzel, Cinema de Guerrilha, pode não ter sido feito como reação ao anterior, Jardim Ângela, mas tem a ver. No documentário anterior, Mocarzel voltava sua câmera para a periferia de São Paulo e mostrava jovens divididos entre suas aspirações para o bem e a representação que a sociedade, o cinema, faz do morador da favela como agente "do mal". Potencialmente, todo jovem da "perifa" é visto como um Zé Pequeno ameaçador (lembre-se de Cidade de Deus).

O cinema, por mais realista que pareça, é uma representação da realidade. Cinema de Guerrilha propõe uma passagem. O filme surgiu como decorrência de uma oficina que Mocarzel ministrou em Sapopemba. O diretor de classe média deu condições para que garotos da periferia adquirissem cultura cinematográfica e fizessem seu filme. É um procedimento politicamente importante. Tem a ver com novas tecnologias, material barato. Fazer um filme não é tão difícil. Complicado é exibi-lo. Cinema de Guerrilha quer dar voz aos que não têm voz. Infelizmente, o filme não vai além das próprias boas intenções.

É o menos elaborado dos filmes de Mocarzel, do ponto de vista da linguagem. Os personagens, diretores de um filme que está sendo feito e que ele incorpora no fim, falam muito e a montagem não cria tensão. Algumas histórias comovem, mas na maior parte do tempo, a falta de elaboração cinematográfica torna o filme arrastado e chato - embora chato, não possa ser considerado critério de avaliação estética.

Após o longa de Evaldo Mocarzel, na terça-feira à noite, veio a primeira ficção concorrente do Recife 2010. O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes, concorreu em Brasília no ano passado. As referências eram desanimadoras, apesar do prêmio (Candango) de melhor ator coadjuvante para Bruno Torres. O garoto, que também dirige, é bom ator. O título remete a um filme de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifune, no começo dos anos 1960. Esqueça o parentesco. A história passa-se em boa parte (quase toda) num posto de gasolina de beira de estrada. Há um personagem misterioso, e tudo gira em torno de uma vingança, mas você só descobre isso no fim. O público riu bastante em alguns momentos. Não parecia uma reação adequada. Afinal, não se trata de uma comédia. No desfecho, houve aplauso caloroso. Moraes fez o que não deixa de ser um western sertanejo, com elementos de circo. O diretor admite que percorre/dialoga com vários gêneros. A estrada e o posto representam um mundo precário, sem raízes. Honesto, ele disse, no palco do Cine-Teatro Guararapes, que trabalhava pensando no público. Pelo menos no Recife, com os defeitos que seu Homem Mau possa ter (e tem). Moraes ganhou a plateia.

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