"Moby Dick": 150 anos de uma caçada empolgante

Nostradamus é pouco. No primeiro capítulo de Moby Dick, o romance de Herman Melville que está completando 150 anos de publicação integral hoje, há a citação de duas manchetes de jornal dramaticamente atuais: "Grande Eleição Contestada para Presidente dos Estados Unidos" e "Batalha Sangrenta no Afeganistão". Junte-se a isto o fato de o narrador - o que pronuncia a primeira frase do livro, "Chamem-me Ishmael" - ser um sobrevivente de Manhattan para a bola de cristal pegar fogo.Se quisermos ir além, a história de Moby Dick pode ser vista como a de um louco que seqüestra um navio de uma empresa e o leva à autodestruição por causa de uma obsessão fanática. Mas, mesmo sem seus poderes antecipatórios, o romance vale ser lido ou relido, 150 anos depois, como uma das melhores histórias de aventuras jamais escritas. E também por ser uma obra-prima da literatura mundial. Há apenas uma edição brasileira em catálogo com o texto integral, a da Ediouro.Moby Dick foi primeiro chamado apenas The Whale (A Baleia) e publicado em três volumes na Inglaterra, pelo editor Richard Bentley, a 18 de outubro de 1851. A edição londrina foi censurada, com o corte de trechos que pudessem ofender sensibilidades morais e políticas. Melville recebeu 150 libras de adiantamento, o que salvou a pátria do escritor, em tempos de dureza. Ele reescreveu o romance quase inteiro, empolgado por estudos de Shakespeare e por uma amizade com o escritor Nathaniel Hawthorne.Na Inglaterra, Moby Dick teve boas resenhas, mas vendeu pouco. Por alguma razão, saiu sem o epílogo, que explica como Ishmael sobreviveu à destruição do navio Pequod. Muitos críticos condenaram Melville por não deixar ninguém vivo para contar a narrativa que é feita em primeira pessoa. Herman Melville escreveu a amigos sobre o novo livro: "um romance de aventuras, baseado em certas lendas das pescarias de baleias do sul e ilustrado pela experiência pessoal do autor, de mais de dois anos, como arpoador".É, como se sabe, a história de uma luta formidável entre uma gigantesca baleia branca, a Moby Dick do título, e um homem obcecado, o capitão Ahab, cuja perna foi decepada num encontro anterior com o bicho. O livro foi mal recebido por críticos e leitores que censuraram o fato dele afrontar as crenças protestantes e os gostos ianques. Sua fonte de inspiração, em parte, foi o naufrágio de um baleeiro chamado Essex, mas o que dá substância ao livro é a monomania do capitão Ahab, que vê na baleia uma personificação do Mal, um símbolo da indiferença do universo com relação ao sofrimento humano. O romance, além da aventura, é uma meditação sobre a natureza de Deus, a natureza em si e o lugar do homem no universo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.