Mobilidade poética desconcertante

Estudo de Moacir Amâncio apresenta ao público brasileiro a obra original da israelense Yona Wollach

Cecilia Almeida Salles, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Yona e o Andrógino: Notas Sobre Poesia e Cabala, de Moacir Amâncio, oferece ao leitor brasileiro uma ampla apresentação da poeta israelense Yona Wollach, que nasceu em 1944 e "viveu e escreveu com rapidez, ou seja, apenas 41 anos".

Sua poesia parece ser marcada pela exacerbada ausência de fronteiras. Não se trata de superar dicotomias mas de experienciar indefinições. O significado arredio de seus poemas é responsável por textos-móbile, como peças de Calder. Uma "poesia que se move e não se deixa prender", com narradores que alteram o ponto de vista e de "sexo duvidoso, o que permite a aplicação de ele ou ela para a mesma personagem", confundindo o papel do gênero; o bissexual e o andrógino sempre de volta "como elemento perturbador".

Amâncio flagra a força da materialidade dos poemas de Wollach na construção de uma nebulosa mobilidade: é na língua que ela "opera o fim dos compartimentalismos, por exemplo, entre natureza - sexos - e poesia, bem e mal, alma e corpo ou almacorpo". Tudo acontece em "dicção anticonvencional que absorve irregularidades gramaticais da oralidade".

Ao mesmo tempo em que se assume e é tida como mística, num mundo em que a religião é vista como um grande objeto que se torna desmontável, a poeta propõe a eucaristia de modo próprio: a transubstanciação da carne em verbo polivalente. É na poesia que Wollach encontra seu ritualismo próprio: realização performática a ser recuperada integralmente pelo leitor. Amâncio afirma que "na sua veia herética, é uma poetisa envolvida pelo vigor da magia oral, isto é, o senso da palavra transformatória que transcende o sacerdote ou poeta ao proferi-la ou ao escrevê-la".

Amâncio lança mão de um sutil entrelaçamento da vida e das obras "desconcertantes" de Wollach, fugindo da busca simplista e pontual por fatos biográficos como chave interpretativa de seus poemas. O autor faz referência ao clássico A Morte do Autor de Barthes, e afirma que "a figura do autor não deveria ser vista como a solução do texto, embora isso não determine sua inexistência". Ficamos, assim, sabendo que a poeta foi "expulsa da escola de segundo grau, estudou desenho, não conseguiu se fixar em empregos, negou-se a criar juízo". Conhecemos também as fixações literárias de Wollach, como seu constante diálogo com Rahel Bluwstein, poeta hebraica nascida na Rússia.

É importante destacar que o livro de Amâncio vai além de Yona Wollach e responde à pergunta: o que move um tradutor em direção a um poeta? Ele conta que ao ler rapidamente o primeiro poema Ten laMilim (Deixa que as palavras), ouviu "a campainha cabalística e onomatopaica do título", e "ali mesmo na loja" decidiu que escreveria a respeito de Yona. Não por acaso esse poema foi traduzido, recebeu a atenção em um sensível segundo capítulo e é retomado em muitos outros. O tradutor foi movido pelo impacto estético do prazer literário, como "momento de adesão do leitor".

Ao comentar critérios adotados, o autor explicita alguns dos princípios que direcionam seu fazer tradutório. Ele diz, por exemplo, que num poema no qual Yona registra uma de suas visões lisérgicas, traduziu "maachelet por faca de abate, que aparece em Gênesis 22". Na relação entre observações como esta, surge uma teoria de tradução, que se caracteriza pelo diálogo com o professor, o crítico e o poeta. Trata-se do modo de ação de um tradutor singular, que expõe os alicerces que sustentam suas escolhas. Ao longo de nossa leitura, conhecemos o pesquisador, que estabelece nexos respeitosos com críticos e biógrafos. A voz do outro o auxilia em suas reflexões. Em um ambiente que exala o prazer que o conhecimento provoca, o leitor de Yona e o Andrógino se embrenha por meio de caminhos que se bifurcam, com informações sobre a cabala e a Bíblia, entre tantos temas.

Há ainda o Amâncio crítico. A partir de poemas nucleares, ele se aprofunda em pontos considerados relevantes para compreensão da obra de Wollach. Assim a poeta é contextualizada e nos aproximamos do ambiente de produção de seus poemas. Acompanhamos também as associações de um crítico que navega por uma grande diversidade de literaturas, artes e textos teóricos, ao tentar (e conseguir) dar conta da indefinição e da mobilidade da poesia de Yona. Há requintes críticos, como falar da biografia da poeta pelos olhos de Baudelaire. É mais uma camada que intensifica a complexidade da rede que sustenta sua tradução.

Na interação do tradutor, pesquisador, crítico e poeta, as "notas sobre poesia e cabala" ganham solidez e densidade de ensaios, que nos oferecem uma leitura instigante.

CECILIA ALMEIDA SALLES É PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA PUC-SP

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