'Móbile' marcou época por dar vez à literatura

Depois de um sono que durou 41 anos, o programa será acordado pela TV Cultura nas próximas semanas

Melchíades Cunha Júnior, de O Estado de S. Paulo,

21 de abril de 2008 | 17h36

Depois de um sono que durou 41 anos, o Móbile será acordado - programa de televisão já exibido por nossas bandas, inventado e dirigido por quem mudou o jeito de lidar com essa máquina de fazer doido (apud Stanislaw Ponte Preta). Fernando Abílio de Faro Santos é o nome dele. Mas todos, ou quase todos, o chamam de Baixo, que é como ele trata todo mundo; se for mulher, é Baixa. Para quem tem nomes pouco comuns, como o meu, ele deixa de lado o Baixo e usa o nome próprio da pessoa, escandindo bem as sílabas. É o caso também do Demétrio, que é como Mino Carta foi registrado no cartório civil. Em retribuição, não o chamo de Fernando, mas de Ferdinand le Grand. Uma homenagem, por suposto. Veja também: Lendário programa 'Móbile' volta à TV Cultura O Móbile durou de 1963 a 1967. Eu era jovem na época, e não o perdia. Mas perdi, e muitas, aulas do curso de Direito na PUC, que começavam cedo e o programa costumava terminar tarde, já que não tinha hora certa para começar. Goulart de Andrade, companheiro de viagem de Ferdinand, diz que avançava pela madrugada. Meu televisor, por sorte, pegava bem a TV Tupi, o Canal 4, que era o líder de audiência na época, com a TV Record, o Canal 7, já lhe pegando nos pés. As transmissões eram ao vivo e em preto-e-branco, o que talvez lhe acrescentassem um quid pluris, devido ao jogo de luzes inventado também por Ferdinand; fruto, pode ser, de suas experiências com encenações de peças no Teatro de Vanguarda - outro programa que desmentia a tirada de Sérgio Porto sobre os efeitos deletérios da televisão para as mentes sãs. Foi através do Móbile que entrei em contato com autores como Ezra Pound, T.S.Eliot, Lewis Carroll, Umberto Eco, Erskine Caldwel, John Steinbeck,Gilles Deleuze, James Joyce, Paul Eluard, J. D. Salinger, Francis Scott Fitzgerald, Edmund Wilson e muitos mais. Não, não era um programa sobre literatura, mas dava vez à arte literária. Foi no Móbile que ouvi Lima Duarte lendo textos de Guimarães Rosa e poemas de Fernando Pessoa. Também eram freqüentes as aparições de Juca de Oliveira, Dionísio Azevedo, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Marika Gidali, Chico Buarque... Era, então, um programa de vanguarda? Era, mas sem ser chato e também sem pretender doutrinar o telespectador. Era também um programa de humor - um humor coloquial, onde o improviso, a sutileza e a inovação formal deixavam a gente com um sorriso discreto nos lábios. Em certos esquetes (ops), lembrava a turma do Monty Phyton, que surgiu bem depois. Uma vez perguntei ao Ferdinand a razão do nome do programa, que supus ter ligação com o Eppur si muove, de Galileu Galilei. Nada a ver. Monsieur Le Grand inspirara-se nos móbiles de Alexander Calder - os delicados objetos do escultor americano, que se moviam se provocados. Ou seja, adquiriam vida ao sopro da brisa, da mão humana...Copio um trecho da biografia de Ferdinand le Grand, escrita por Jefferson Del Rios, e que está no volume recém-lançado pela Fundação Padre Anchieta, em homenagem aos 80 anos do nosso amigo, sob o título fernando faro - baixo - homenagem ao maior produtor da MPB na televisão: "O programa estreou levando O Processo, de Kafka, para a televisão. Colocou no ar os poetas concretistas de São Paulo, Décio Pignatari e os irmãos Campos, fazendo improvisos, work in progress para sermos joycianos. Deu-se ao luxo de oferecer ao público o célebre e difícil monólogo de Molly Bloom que encerra Ulisses. Visto a distância, Móbile pode parecer amadorismo irreal e inviável em televisão. Não era." Depois do Móbile, Ferdinand criou, também na Tupi, o Poder Jovem, onde o forte era a MPB, acompanhada de algumas "loucuras", como o surgimento, por exemplo, de uma voz em off pregando as excelências do pão-de-queijo de Araxá . Era uma revanche contra os pregões da pamonha de Piracicaba. Ferdinand veio depois com o Divino Maravilhoso, ainda na Tupi. E continuou servindo seus deliciosos biscoitos, dentro e fora da TV, até culminar com o imperecível Ensaio, já na TV Cultura, que é quem trará de volta o Móbile nas próximas semanas.

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