Moacir Amâncio lança "Contar a Romã"

Moacir Amâncio é um poeta que desconfia das modas, movimentos e ondas poéticas. "Tudo isso existe em função da busca de um lugar no mercado, e esta é a palavra correta, mercado, em que são usadas fórmulas da linguagem do mercado", argumenta. Nesse contexto, os rótulos estéticos são inventados, acrescenta, "para chamar atenção com a mesma técnica da publicidade". Essa estratégia, a seu ver, não configura uma posição de combate, mas de rendição. "A poesia não deve ser vista como uma coisa de momento. Ela não tem passado nem futuro, ela é o presente, de Dante a Ungaretti."Preocupado com o presente, Amâncio, que lançará amanhã Contar a Romã (Globo, 116 págs., R$ 18) na Livraria da Vila, na Rua Fradique Coutinho, 915, das 18h30 às 21h30, é um poeta voltado para as coisas existentes. "Muitas vezes somos levados a pensar que as artes plásticas estão no mármore e na tinta, que a poesia é só palavra. É isso e também não é", alerta. Quando os poetas ficam só nas palavras, acabam correndo o risco de cair "no pior do parnasianismo, pois há também o melhor, claro".Em vez das palavras, Amâncio prefere partir da vida. "A vida é o que conta. Nos grandes poetas encontramos, de maneira evidente ou não, as questões políticas, emocionais, religiosas, filosóficas, sexuais, que todos temos de maneira também evidente, ou não."Não é a pose, a seu ver, que faz um poeta. "Escrevo a qualquer momento, em qualquer lugar, no ônibus, no avião, no bar. Depois, claro, há períodos de retrabalho." Muitas vezes a primeira versão de um poema parece pronta, mas o simples fato de reescrever implica reflexão "e essa reflexão pode nos levar de volta ao início". Essa parte sim, de reescrita, exige disciplina, trabalho, suor. Mas não teme usar a palavra desprezada, inspiração, hoje banida dos debates poéticos: "Tudo isso em função da inspiração, esse milagre da gratuidade."São muitas as vozes que podem ser entreouvidas em seus versos. Não só de poetas, mas de prosadores. "Não distingo prosadores de poetas. Rosa, Joyce, Machado, Kafka, Clarice, para mim, são grandes poetas." Quanto aos poetas mesmo, Amâncio começou lendo Manuel Bandeira. Mas se sente obrigado a citar, ainda, Rimbaud, Lautréamont, Drummond, Jorge de Lima e, em particular, Murilo Mendes, "sempre estimulante, generoso". E, nome inevitável, o de João Cabral. "Acho que há coincidências de preocupações. Retomar uma temática é colocá-la em xeque." Moacir tem consciência, ainda, de que, ao citar um poeta uma segunda cauda de influências arrasta-se logo atrás. "Não podemos nos esquecer que Cabral pertence a toda uma família poética. Penso em Jorge Guillén, por exemplo." Confirmando essa suspeita, lendo os versos de Amâncio, o poeta português Albano Martins, por exemplo, se lembrou de Guillén. Poetas aparentemente distantes podem estar mais próximos do que admitimos.Autor de versos fortemente visuais, Amâncio lembra que seus primeiros ensaios de expressão foram com o desenho, a cor e a forma. "Se você me perguntar qual a arte que prefiro, diria que é a poesia." Mas aí entram as artes plásticas e a dúvida se instala. "Você fala em Cabral, fico pensando em Tápies, Calder, Volpi, Orlando Marcucci, Nuno Ramos, José Cláudio, Cildo Meireles." Pensa ainda em Frank O. Gehry, com sua lição de síntese. "Porque cada texto é uma síntese, distorcida, consciente ou não do que se leu, viu, viveu e vive num presente contínuo."

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