Mitomania

Não se entende o porquê da necessidade de mentir, já que a verdade sincera não dói

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2019 | 02h00

É uma sensação midiática, muito mais pelo estranho ou incorreto do que pela lógica. Muitas personalidades, como Churchill, Nelson Rodrigues, Nelson Piquet e até Romário faziam a festa dos repórteres, com suas declarações brilhantes e sarcásticas. 

Ele dá declarações bombásticas, exageradas, incomuns e mentirosas, numa sinceridade que cativa parte do eleitorado, mas de uma irresponsabilidade sem tamanho, que até já derrubou bolsas. A mentira abafa a falta de conhecimento e erros cometidos. A mentira mina as pretensões do inimigo. Na guerra, chama-se contrainformação.

Falo o que penso, diz. Seu superego é do tamanho de uma noz. Seu filtro é mais vazado do que meia de uma punk-rock. Não se incomoda em desagregar. Não se preocupa com a liturgia do cargo. 

O grupo Aos Fatos, que faz um fact-checking de suas “fake news”, contabilizou: foram 233 declarações falsas ou distorcidas em 212 dias de governo. Curiosamente, ele declarou na semana, depois de exonerar o diretor do Inpe, que “maus brasileiros” divulgam “números mentirosos”. 

Algumas falas ficaram notórias e causaram espanto. No Brasil de Bolsonaro, ninguém passa fome, não há desmatamento na Amazônia, os agrotóxicos são um bem para o meio ambiente, aumentou o número de analfabetos, o pai do presidente da OAB foi justiçado por seus companheiros da esquerda, Miriam Leitão pegou em armas e faz mimimi, pois nunca foi torturada.

Até que é modesto, perto das 10.111 “falsehoods” proferidas pelo seu Mestre Yoda, Donald Trump, em 828 dias de governo (de 20 de janeiro de 2017 a 27 de abril de 2019, contabilizadas pelo Washington Post), como: “O barulho das turbinas eólicas causa câncer”. Em dois dias de abril, Trump atacado chegou a mentir 171 vezes. Número representativo. Seria o Darth Vader?

Os jornalistas de Aos Fatos não dormem no ponto. Desde 2016, seguem os compromissos da IFCN (International Fact-Checking Network). Acompanham diariamente declarações de políticos e autoridades, independentemente da ideologia. Utilizam a sequência: 

1. Selecionam uma informação pública a partir da relevância.

2. Consultam a fonte original para checar a veracidade.

3. Procuram por fontes de origem confiável como ponto de partida.

4. Consultam fontes oficiais para confirmar ou refutar a informação.

5. Consultam fontes alternativas, que podem subsidiar ou contrariar dados oficiais. Contextualizam.

Parecem etapas básicas da apuração praticada em toda a cadeia jornalística. Porém, por conta da velocidade e timing das redes sociais, da enxurrada de fake news e ambição de furar colegas e concorrentes, ou de interesses partidários mal-intencionados, muitas informações não são checadas.

Aos Fatos divide a declaração checada em sete categorias: verdadeira, imprecisa, exagerada, contraditória, insustentável, distorcida ou falsa. Dois jornalistas, um repórter e um editor precisam chegar a um consenso. 

Por um gráfico, percebe-se que as mentiras de Bolsonaro são acumuladas num curto período. Por vezes, fica dias sem mentir. De repente, dispara a metralhadora. Janeiro, abril e maio foram momentos calmos. Paradoxalmente, no dia da mentira não rolou umazinha. Em março e julho, ele estava com o dedo no gatilho.

Sua maior mentira é o mote da campanha: “Montamos nossa equipe de forma técnica, sem viés ideológico”. Papo furado. Em mapeamento feito pelo Globo, 286 pessoas foram nomeadas nos gabinetes da família Bolsonaro desde 1991. Dessas, 102 têm algum parentesco ou relação familiar entre si, 35% do total dos funcionários indicados.

Sobre jogos eletrônicos, mentiu diversas vezes, inclusive na taxação. Uma delas: “O Brasil é o segundo mercado no mundo nesse setor”. Não é, não. É a China. “Sabe o tamanho, a extensão da reserva ianomâmi? É o dobro do Estado do Rio de Janeiro, 9 mil índios.” Mais ou menos. Dados da própria Funai: são 25 mil. 

“Lembra da PEC das Domésticas? Eu fui o único deputado que votou contra.” Nada disso, teve outros. Aliás, ele não compareceu na votação do primeiro turno. “O Brasil é o país que menos usa agrotóxicos.” Para com isso, irmão! “Só nós temos nióbio.” Canadá, Egito e Congo também têm.

Suas mentiras lembram a de grupos extremistas de WhatsApp. Ele replica muitos dos memes e fake news fabricados por grupos de apoio. Como a de fotos de pelados em eventos universitários, para denegrir a imagem e justificar os cortes das federais, ou o vídeo “vazado não por acaso” de “pessoas do mal, inimigas da democracia e liberdade, juntas”, que, na verdade, eram cenas do filme O Processo, exibido no Festival de Berlim.

“Trabalhando com 9, 10 anos de idade na fazenda, eu não fui prejudicado em nada.” Foi desmentido pelo próprio irmão, Renato, que disse para a revista Crescer que eles nunca precisaram trabalhar quando pequenos. 

“O Acordo de Paris, Alemanha não vai cumprir, porque a fonte de energia deles são fósseis, não tem como sair rapidamente de um para o outro.” Médio: 40% da fonte deles é gerada por energia solar, eólica, biomassa e hidrelétricas. 

Sobre imposto sindical. “Isso dá aproximadamente R$ 3 bilhões por ano nas mãos dos sindicatos do Brasil.” Menos. O “isso” dá R$ 500 milhões. “As Forças Armadas brasileiras em nenhum momento de sua história se furtaram de estar ao lado de seu povo para lutar por democracia e liberdade.” Como é que é?

“Nosso ministro Tarcísio já começou o asfaltamento da BR-163.” Começou dois anos antes, no governo Temer. “Era proibido (aos médicos cubanos do Mais Médicos) trazer a família para cá.” Era permitido.

As mentiras se repetem, soam grotescas. Em pouco tempo de convívio, identificamos um parente, funcionário ou amigo mentiroso. A fama se espalha. E é chatíssimo conviver com ele. Passamos a evitá-lo. Não é mais convidado para as festas. Contratá-lo, então... É uma minoria. Não se entende o porquê da necessidade de mentir, já que a verdade sincera não dói.

Como canta Erasmo Carlos: “Pega na mentira, pega na mentira. Corta o rabo dela, pisa em cima, bate nela. Pega na mentira...”. 

Mentira e populismo são um pleonasmo e têm pernas curtas. O problema é quando ela se banaliza no dia a dia, nas relações sociais. 

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